Ttulo: A Fonte dos Desejos.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Nova Cultural, So Paulo, 1986.
Ttulo Original: Dancing on a Rainbow.
Gnero: romance.
Digitalizao e correco: Dores cunha.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.
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A fonte dos desejos
Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.
Ttulo original: Dancing on a Rainbow
Copyright: (c) Barbara Cartland 1986
Traduo: Erclia Magalhes Costa
Copvright para a lngua portuguesa: 1986
Editora Nova Cultural Ltda. - So Paulo
Esta obra foi composta na Artestilo Uda. e impressa na Editora Parma Ltda.
Nova Cultural - Caixa Postal 2372

NOTA DA AUTORA
Na ltima dcada do sculo XIX, Paris tornou-se a capital do mundo civilizado, do modo elegante de viver, do prazer e dos gnios artsticos.
A Torre Eiffel, construda em 1889, sendo a mais alta estrutura metlica de todo o mundo, foi o smbolo de um sculo turbulento e de grandes feitos em Paris.
Paris cresceu muito e foi se tornando cada vez mais burguesa. Foi, ao mesmo tempo, tornando-se cada vez mais democrtica, apesar das injustias sociais. As dvidas 
de guerra haviam sido pagas  Alemanha vitoriosa antes do prazo previsto, e o imprio colonial da Frana crescia rapidamente.
Em Paris, as reas que haviam sido devastadas pelo fogo e pela artilharia inimiga haviam sido reconstrudas. Foi concluda tambm a construo do Teatro de pera. 
Pouco havia na capital da Frana que revelasse que ela fora uma cidade sitiada, agitada por uma guerra civil.
Para os amantes dos prazeres mais intensos e mais refinados, cidade alguma poderia igualar-se a Paris. J famosa como centro da moda feminina, famosa tambm por 
sua comida, sua msica, pela vida brilhante de que gozava a alta sociedade, a partir de 1889, Paris foi presenteada com o fascnio do Moulin Rouge. A partir dessa 
data, as grandes asas de madeira vermelha do moinho de vento giravam constantemente sobre a entrada do prdio; o Moulin Rouge tornou-se, durante toda a dcada seguinte, 
a Meca daqueles que tinham muito dinheiro para gastar.
Escritores e artistas da poca encontravam completa liberdade em Paris. Podiam escrever, pintar e viver o que e como quisessem, no meio de um povo apaixonado por 
tudo o que fosse novidade.
Havia liberdade de imprensa, liberdade de convices polticas, e liberdade para se pensar.

CAPITULO I
1889
Antes de desmontar, lady Loretta Court deu umas palmadinhas carinhosas no pescoo de seu cavalo.
- Hoje ele comportou-se maravilhosamente, Ben - ela disse ao cavalario, que esperava para levar o belo animal aos estbulos.
- Ele sempre gostou de ser montado pela senhora, milady
- disse Ben com um sorriso.
Lady Loretta tambm sorriu para ele e subiu alguns degraus, entrando no grande hall.
Quando j se achava no alto das escadas, um criado que vinha apressado ao seu encontro lhe disse:
- Sua Graa deseja falar-lhe, milady, e lhe pede que v  biblioteca imediatamente.
Loretta suspirou. Tendo cavalgado durante duas horas, sua vontade era tomar um banho e tirar a roupa de montaria. Entretanto, se o pai desejava v-la, nada podia 
fazer seno obedecer.
Desceu as escadas, entregou ao criado as luvas e o chicote, que nunca usava; numa atitude quase hostil, tirou o chapu e deu-o tambm ao criado.
Depois de ajeitar os cabelos, atravessou o hall e foi caminhando pelo longo e largo corredor que conduzia  biblioteca do pai.
Loretta fazia conjeturas sobre o que seu pai poderia querer lhe dizer. Talvez apenas quisesse adverti-la a no sair cavalgando sem a companhia de um dos cavalarios. 
Isso era uma coisa que ela sempre fazia e que o pai desaprovava. com certeza ele falaria muito sobre o assunto, e seria difcil escapar da biblioteca to cedo.
Loretta amava o pai, mas desde a morte da esposa ele tornara-se extremamente autoritrio. Como muitos homens mais velhos, raramente ouvia o que as pessoas tinham 
a dizer.
Em sua posio de governador do condado, o duque vivia muito ocupado, mas jamais deixava de dedicar parte de seu
tempo  filha nica.
Ao mesmo tempo, suas ideias sobre convenes sociais eram
severas, enfadonhas e rgidas ao extremo.
Ela abriu a porta da biblioteca e entrou, apreensiva, sem deixar, entretanto, de observar que aquele cmodo continuava lindo e agradvel como sempre.
O que mais apreciava naquele aposento eram as telas, que retratavam belssimos puros-sangues, pintados pelo prprio
duque.
Quando mais jovem, ele havia sido um dos mais bonitos
nobres da corte da rainha Vitria.
Ao ver o pai escrevendo, sentado  escrivaninha, Loretta notou que ele estava de muito bom humor.
Havia uma pilha de papis diante dele, porque, apesar de ter um secretrio, o duque tinha um lema: "Se quiser alguma coisa bem-feita, faa-a voc mesmo".
O resultado disso era que sempre tinha muito trabalho para
fazer.
Ao ver Loretta, ele sorriu e pensou, como sempre, que era um homem afortunado por ter uma filha to encantadora. No se poderia esperar o contrrio, tendo sido a 
me de Loretta a mulher mais linda que ele j vira.
- Queria falar comigo, papai?
- Sim, Loretta, tenho algo importante para lhe dizer. Quis falar-lhe sobre isto ontem  noite, mas achei que no convinha, pois sentia-me cansado depois das corridas, 
e, alm disso, queria que voc dormisse bem.
Uma expresso aborrecida toldou o olhar de Loretta, e ela
perguntou:
- E o que  que no quis contar-me ontem  noite?
O duque levantou-se e caminhou at o outro lado da biblioteca, ficando em frente  cornija da lareira, lindamente entalhada, acima da qual pendia um lindssimo quadro 
pintado por Sartorius.
- Ontem, quando estive em Epsom - ele comeou -, vi meu velho amigo, o duc de Sauerdun.
Como o duque falasse devagar e com certa pompa, Loretta percebeu que ele ia contar uma longa histria. Ento, sentou-se em uma poltrona.
Ela sempre ouvira o pai falar no duc. Embora fossem de nacionalidades diferentes, os dois cavalheiros tinham algo em comum: ambos gostavam muito de cavalos, e seus 
puros-sangues corriam tanto na Inglaterra como na Frana, sempre numa competio acirrada.
- Seu cavalo venceu o do duc na corrida de ontem?
- Para dizer a verdade, Minotauro ganhou com facilidade. Chegou com meio corpo de vantagem sobre o de Sauerdun! exclamou o duque, satisfeito.
- Fico contente, papai, por v-lo to feliz.
- Depois de terminada a corrida - continuou o pai, como se a filha nada tivesse dito -, Sauerdun e eu tomamos um drinque juntos, e ele me sugeriu algo em que no 
havia pensado antes, mas que achei muito interessante.
- O que foi, papai?
Loretta estava achando que o pai fazia muitos rodeios, e imaginava como poderia sair dali e ir para seu quarto.
- J faz muito tempo que me preocupo com voc, minha filha. Gostaria que se casasse. A sugesto do duc  que voc se case com o filho dele. Seria uma tima soluo 
para o problema.
Loretta endireitou-se de repente, e todo o seu corpo ficou tenso.
- O que. o que est dizendo, papai? No entendo aonde quer chegar!
- Estou falando sobre seu casamento, querida. Teria grande prazer em dar sua mo ao marquis de Sauerdun, que herdar, quando o pai morrer, um castelo magnfico no 
vale do Loire, bem como muitas propriedades na Normandia, lugar de origem dos Sauerdun.
- Mas... papai! No pode estar falando srio! Como pode arranjar um casamento para mim... e com um homem que nem conheo? Alm disso, prometeu levar-me a Londres, 
para
a temporada.
- Sim, eu sei, eu sei! - disse o duque, um tanto irritado.
- Mas, francamente, minha querida, esta  uma oportunidade boa demais para que a percamos.
Loretta ficou de p. Ela era magra e de estatura mdia; mesmo assim, ergueu a cabea e olhou de maneira desafiadora para o pai, bem mais alto do que ela.
- Pode dizer o que quiser, papai, mas no tenho a menor inteno de me casar com um homem que no amo!
- Amor? Ora, o amor vir depois que vocs se casarem. O que tem a fazer, sendo minha filha,  casar-se com o homem certo; um homem com uma slida posio na vida, 
o homem que eu escolhi para voc.
- Mas, papai, sou eu quem vai se casar com ele, e no
voc!
- Sei disso - disse o duque, zangado. - Mas est muito enganada se pensa que vou permitir que se case com algum joo-ningum que fique impressionado pela sua posio 
social ou que pense em herdar sua fortuna, uma vez que  minha nica
herdeira.
- Mas, papai, os nicos homens que vejo no momento so os que vivem no condado e que conheci desde criana! - protestou Loretta.
com voz triste, ela continuou:
- Depois que mame morreu, no vou a festas ou bailes, nem a lugar algum onde possa encontrar bons partidos.
- Mesmo que frequentasse bailes, jamais iria conhecer homem nenhum que fosse melhor partido do que o marquis de
Sauerdun.
- Ele pode ser um timo partido do ponto de vista social, mas como posso saber se ele ser um bom marido, se nunca
o vi?
- Vai conhec-lo! Claro que vai conhec-lo! Eu disse a Sauerdun que trouxesse seu filho para ficar conosco em Madrescourt, antes das corridas de Ascot. O duc achou 
uma boa
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ideia. Poderemos anunciar o noivado de vocs antes do trmino da temporada.
- Ora, papai, est arranjando tudo sem me dar a chance de decidir por mim mesma se desejo me casar com o marquis ou se no gosto dele, a ponto de recus-lo.
- Recus-lo? O que quer dizer com isso? Nunca ouvi tamanha tolice! Na Frana, Loretta, como bem sabe, os casamentos so arranjados. O duc tem certeza de que aceitar 
seu filho, e o marquis no cometer erros uma segunda vez.
- Segunda vez? Como?
- O marquis casou-se quando era muito jovem - replicou o pai. - Ao que parece, confiou-me Sauerdun, ele ficou louco por uma jovem que conheceu em Paris. Ela vinha 
de boa famlia, e o duc no viu por que no aceitar o casamento, que acabou se transformando num desastre. Os dois jovens no se davam bem, e no havia sinal de 
herdeiros. Felizmente, a jovem sofreu um acidente de carruagem, ficou muito ferida e veio a falecer.
Loretta no sabia o que dizer. O duque fez uma pausa e depois continuou:
- Desta vez Sauerdun no quer correr riscos. Ele quer escolher uma esposa para seu filho com o mesmo carinho com que escolhe seus cavalos de raa.
- Cavalos! - gritou Loretta, mas o pai continuou, sem lhe dar ouvidos.
- O duc j ouviu falar de sua beleza, minha filha, e est determinado a realizar esse casamento logo depois de voc e o marquis se conhecerem e ficarem noivos.
- No farei isso, papai! Sei muito bem o que quer dizer: que no tenho escolha e vou ter que me casar com o marquis. Quando ele chegar aqui, todos os nossos parentes 
j estaro sabendo a razo de voc t-lo convidado.
Ela ergueu a voz e prosseguiu:
- Depois que todos j estiverem sabendo que ns dois estamos comprometidos, ser impossvel eu no aceitar o pedido de casamento do marquis, se  que ele vai fazer 
algum pedido.
Quando Loretta terminou, o duque teve um sbito ataque de raiva. Todos naquela casa conheciam bem os tais ataques.
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O duque era um homem alto e corpulento, e tornava-se assustador quando ficava zangado.
Ao ver o pai to enfurecido, Loretta foi ficando cada vez
mais plida.
O pai chamou-a de ingrata, egosta, imprudente e insensvel. Disse ainda que a filha fazia questo de contrari-lo, sabendo que ele se sentia s e infeliz depois 
da morte da esposa. Acusou Loretta de estar sendo desapiedada.
Apesar de ela ter tomado a firme resoluo de no se deixar influenciar pelo que o pai dizia, ficou com os olhos rasos de lgrimas. Finalmente, quando quis falar, 
ele no quis ouvi-la.
- Voc vai se casar com Sauerdun, nem que eu tenha que arrast-la pela nave da igreja at o altar! No vou mais ouvir essa tolice de que precisa estar apaixonada.
Ele olhou para a filha com um olhar inflexvel.
- Tem que me obedecer, Loretta. Est ouvindo? Vai fazer exatamente como eu disse, e no se fala mais sobre o assunto!
O pai, a essa altura, gritava, e Loretta no pde mais suportar ficar ali. Saiu correndo da biblioteca, soluando.
Quando chegou ao alto da escada, depois de ter atravessado o hall, as lgrimas lhe rolavam copiosamente pela face.
Ao entrar em seu quarto, ela bateu a porta com fora, tirou o casaco de montaria, sentou-se na cama e cobriu o rosto com
as mos.
- O que devo fazer? Oh, meu Deus, o que devo fazer?
Desde que tinha idade suficiente para ler histrias de amor,
Loretta emocionava-se com elas. A primeira que leu foi Romeu
e Julieta; desde ento, sonhava em viver um grande amor. Ela
haveria de encontrar o homem de seus sonhos.
Loretta foi crescendo, e esse homem tornava-se mais e mais real. Ela no podia identificar seu rosto, mas tinha certeza de que no estava distante dela.
Ela partilhava seus pensamentos com o homem de seus sonhos, e sabia que um dia ele iria materializar-se, e ambos viveriam felizes para sempre.
Podia parecer um conto de fadas para crianas, mas esse sonho fazia parte da vida de Loretta, que nunca passava um
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dia ou uma noite sem pensar no amor que viveria com esse homem ideal.
O homem de seus sonhos estava sempre ao seu lado. Juntos, escalavam montanhas no Himalaia, navegavam pelo Amazonas, eram nufragos numa ilha deserta, eram perseguidos 
por bandidos ou por uma tribo hostil de rabes.
Ele sempre a salvava, e, ao lado dele, ela nada temia.
Em segredo, Loretta acalentava a esperana de ir para Londres, logo depois de terminar o perodo de luto pela me. L estaria o homem de seus sonhos, esperando por 
ela.
Talvez o encontrasse em um dos bailes de gala oferecidos por anfitris importantes, todas amigas de seu pai. Ou poderia conhec-lo no baile que o pai ofereceria 
a ela na manso da famlia, em Park Lane.
Seria ainda mais romntico se ela o encontrasse no Palcio de Buckingham, na sala do trono, quando, com as trs plumas brancas do Prncipe de Gales no cabelo, ela 
fosse apresentada  rainha. Se a rainha Vitria estivesse indisposta, ela seria apresentada  linda princesa de Gales.
J havia sido planejado que a manso Madescourt, em Park Lane, fosse aberta para receber Loretta e seu pai.
A tia de Loretta, a condessa de Brendon, que era sua chaperon quando ela se achava em Londres, a acompanharia s festas.
A condessa havia mandado para a sobrinha, que se achava no castelo, no campo, vrios vestidos, todos lindssimos, para usar na ocasio de seu dbut. Os vestidos 
vinham das melhores, mais caras e mais requintadas casas de moda da Bond Street.
Loretta achou os vestidos maravilhosos, ambos um tanto convencionais, mais ao gosto da tia. O duque, muito generoso, autorizou-a a comprar muitos outros vestidos 
a seu gosto, escolhidos por ela mesma, assim que estivesse em Londres.
Agora ela sabia que o pai no a levaria a Londres, apesar de ser tradio uma jovem de sua idade ser apresentada  rainha no grande salo do Palcio de Buckingham.
O duque s pensava na visita do duc de Sauerdun e do filho, o marquis, que, segundo as previses de Loretta, seria no fim de maio ou comeo de junho. 
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"No terei a chance de conhecer algum especial, depois de tudo o que disse a papai", pensou Loretta.
Sendo muito ligada ao pai, ela sabia exatamente como a mente dele trabalhava, e tinha certeza de que ele apresentaria todo tipo de desculpas para no lev-la a Londres. 
Ele iria concentrar-se nos preparativos para receber seu futuro genro, dispensando-lhe um tratamento digno de rei.
"Mas isso  injusto... muito injusto!", dizia Loretta a si mesma, sentindo-se presa em uma armadilha, da qual no via
como escapar.
Ao mesmo tempo, estava disposta a lutar para no ser forada a fazer um casamento sem amor, o que seria desastroso no s para ela, como para o homem com quem se 
casasse. Era preciso evitar tal desastre. E no ia ser fcil. Loretta sabia disso muito bem. Seu pai no voltava atrs depois de haver tomado uma deciso.
Loretta tambm era bastante inteligente para reconhecer que a ideia de ter como marido o filho do duc de Sauerdun era, na verdade, muito sensata, do ponto de vista 
dos pais, lgico. O marquis era, segundo os comentrios, "um partido", e ela duvidava que pudesse haver na Inglaterra algum candidato  sua mo que se pudesse igualar 
a ele, tanto em posio social
como em riqueza.
Havia muitos comentrios sobre a fortuna fantstica do duc, que era conhecida e exaltada nos meios sociais. Alm disso, ele possua muitas propriedades espalhadas 
pelo mundo todo. Loretta nunca prestara muita ateno quando o pai lhe falava sobre as telas valiosssimas que os Sauerdun possuam, que rivalizavam com as do Museu 
do Louvre e da National Gallery. Mas devia admitir que sempre se impressionara com os cavalos do duc de Sauerdun. Seus estbulos eram muito maiores, e seus puros-sangues 
tinham muito mais vitrias do que os de seu pai, ou talvez do que os de qualquer outra pessoa na Inglaterra.
Ela podia entender por que o pai havia ficado de to bom humor, quando seu melhor cavalo, o Minotauro, havia vencido o cavalo do duc. Fora certamente por isso que 
ele havia aceitado a sugesto do amigo sobre o casamento de seus filhos.
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Loretta pensava que o duc de Sauerdun devia ter uma razo muito especial para querer arranjar um casamento para o filho com tanta pressa, em vez de convid-la, e 
ao pai, para ir visit-los na Frana.
"Ah, mas  bem prprio de papai tomar uma deciso apressada. Agora fica insistindo para eu me casar com um francs que nunca vi, s porque ele e seu amigo tm interesse 
pelo mesmo esporte", pensou Loretta.
Ela no ignorava que, como o pai havia dito, na Frana os casamentos eram, em geral, arranjados.
Mesmo na Inglaterra isso acontecia entre as famlias aristocrticas.
"Pensem o que quiserem, mas vou ser uma exceo a essa regra", disse Loretta para si mesma, de maneira desafiadora.
Ela no ignorava que seria muito difcil no fazer o que o pai queria, e que precisaria de muita astcia para conseguir escapar dos planos que o pai tinha para ela.
Se ele podia ser to obstinado quando queria uma coisa, ela tambm o seria.
Depois de se trocar, Loretta desceu para almoar; estava plida e arrasada.
Esperava que o pai, vendo-a abatida, angustiada, silenciosa e de olhos baixos, se sentisse um tanto culpado.
Entretanto, ele estava de tal bom humor ante a ideia de um casamento to a seu gosto, que mal notou o aspecto da filha. Pensava que, por ter sido to severo com 
Loretta, ela no ofereceria resistncia.
Pai e filha almoaram sozinhos, pois Emily, a prima de Loretta, que j estava h alguns meses no castelo, apanhara uma forte gripe e achava-se acamada.
O duque passou uma parte do almoo falando sobre as corridas que havia assistido no dia anterior. Ele descreveu detalhadamente como seu cavalo havia derrotado muitos 
competidores famosos, inclusive o do duc de Sauerdun.
- Depois de amanh - disse ele - irei a Newmarket, onde espero ser to bem-sucedido como fui ontem.
Loretta no respondeu, e o pai disse, irritado:
- Ora, filha, pelo amor de Deus, por que essa cara de
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quem perdeu uma moeda de ouro? Qualquer jovem estaria dando pulos de alegria s em pensar que iria fazer um casamento extraordinrio, o maior da temporada!
- Mas no me levou a Londres para a temporada, papai! lamentou a filha.
O duque considerou o argumento e disse em seguida:
- Bem, se est ressentida por causa disso, posso ver o que pode ser feito. Mas no adianta abrirmos nossa casa em Londres para oferecermos um grande baile para voc, 
como
havamos planejado.
Ele ficou pensativo por alguns segundos e acrescentou:
- Vamos oferecer um baile aqui, quando os Sauerdun estiverem conosco. Portanto, converse com sua prima Emily e planejem um baile que seja o mais encantador de todos 
os que j
oferecemos.
Loretta sabia que o pai estava pensando em anunciar seu noivado com o marquis nesse baile. Mas disse simplesmente:
- Parece ser uma boa ideia, papai.
- Ento est feliz? Voc  mesmo uma boa filha! Prometo que a levarei a Londres para ser apresentada formalmente  rainha, no palcio. Isso ser em meados de maio, 
no?
- Sim, papai.
- Muito bem! Iremos a um ou dois bailes e assistiremos a um jogo de plo em Ranelagh. No abriremos a casa completamente, como havamos planejado. Poderemos ficar 
em Londres at depois das corridas de Ascot.
- Sim, papai.
Terminado o almoo, o duque saiu apressado para uma reunio, e Loretta trocou-se, vestindo novamente seu traje de
montaria.
Saiu sozinha, desobedecendo s severas ordens do pai de sempre se fazer acompanhar por um dos cavalarios.
Sabia que na beira do bosque, a trs milhas dali, Christopher Willoughby estaria esperando por ela.
Christopher era um rapaz que ela conhecia desde a infncia. Ele possua uma propriedade localizada ao lado da do duque, mas muito menor, e por isso o pai de Loretta 
a considerava sem importncia.
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Na verdade, o duque tratava Christopher e o pai com altivez. O pai de Christopher, apesar de ser um baronete, no era rico, portanto pouco contribua para as organizaes 
beneficentes cujo patrono era o duque. Se este soubesse que a filha costumava encontrar-se com Christopher para cavalgarem juntos, ficaria furioso.
Mas Christopher era o nico rapaz que Loretta conhecia bem. Embora ele j estivesse apaixonado por ela h trs anos, ela o via como o irmo que nunca tivera.
Ele era seu maior amigo, e, por isso, era muito mais divertido cavalgar ao lado dele do que de um cavalario. Por essa razo, sempre que saa para dar um passeio 
a cavalo, Loretta marcava um lugar onde pudessem se encontrar.
Juntos, eles atravessavam os campos ou o bosque, e conversavam sobre assuntos que interessavam a Loretta e que Christopher procurava entender, por am-la demais.
Assim que viu Loretta aproximar-se, Christopher soube que algo no estava bem.
- O que aconteceu? - ele perguntou.
Ela nem notou que ele j sabia instintivamente que ela estava aborrecida, e respondeu apenas:
- No via a hora de contar a voc o que meu pai est planejando para mim.
- O que ?
- Meu casamento!
O tom de Loretta era dramtico, e por um momento houve silncio. Ento, numa voz sufocada, ela disse:
- Oh, meu Deus! Eu sabia que isso iria acontecer, mais cedo ou mais tarde.
Christopher era um bonito rapaz de vinte e cinco anos. Tinha ombros largos, e montava muito bem. seu cavalo de raa no muito apurada - que era o que seu pai podia 
comprar. Havia servido num bom regimento, mas preferira voltar para casa e cuidar de sua propriedade e das terras, para faz-las dar lucro.
Amando Loretta desmedidamente, ele no perdia uma oportunidade que fosse de estar com ela, e com isso negligenciava seus deveres. Mesmo sabendo que seu amor era 
sem esperanas,
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pois nada tinha para lhe oferecer, sua vida era extremamente feliz s por poder estar ao lado de Loretta.
Assim que Loretta lhe contou sobre o casamento que o pai havia arranjado para ela, foi como se o mundo tivesse escurecido de repente. Tudo o que era mais importante 
para ele rura aos seus ps, em pedaos.
- Voc no pode ficar noiva de um homem que nunca viu! - ele disse, enquanto Loretta fazia uma pausa para respirar.
- Foi isso o que eu disse a papai, mas ele no quer me ouvir. Oh, Christopher, o que posso fazer? No quero me casar com um francs com quem nada tenho em comum. 
Tambm no vou viver na Frana, longe de tudo o que amei desde
minha infncia!
Ela pensava naquele momento nos bosques, nos jardins e na beleza dos campos ao seu redor, que eram todo o seu
mundo.
- Mas tudo isso  um erro! Chega at a ser absolutamente
desumano! - disse Christopher com firmeza.
- Eu sabia que me compreenderia. Mas como poderei fazer meu pai entender que o modo como me trata  injusto?
No havia o que responder, e Christopher sabia, assim como todos naquelas redondezas, que, quando o duque decidia algo, ningum o demoveria de sua deciso.
- Se mame estivesse viva - continuou Loretta -, tenho certeza de que ela conseguiria que papai fosse mais razovel. O marquis poderia muito bem vir  Inglaterra 
e ns nos conheceramos em uma festa ou um baile em Londres, sem que ningum falasse em noivado ou casamento.
- Vamos supor que voc o detestasse.
- Se isso acontecesse, pelo menos eu teria a chance de recusar seu pedido de casamento. Mas, como sabe, foi o duc quem sugeriu que nos casssemos, e meu pai aceitou 
a sugesto sem me consultar. Portanto, s me resta aceitar o anel que o marquis por em meu dedo, tornando-me sua esposa!
- No pode fazer isso!
- Mas  exatamente assim que vai acontecer, a menos,
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claro, que eu possa evit-lo. Voc sabe como papai  obstinado, e ele sempre admirou o duc de Sauerdun. Ela fez uma pausa e prosseguiu a seguir:
- Tenho ouvido falar tanto sobre o duc e seus cavalos, que at parece que esses cavalos so meus.
- Logo sero mesmo - disse Christopher com amargura.
- No quero os cavalos do duc! Tambm no quero seu filho!
Christopher respirou fundo.
- Quer fugir comigo, Loretta?
Surpresa, ela olhou para ele e percebeu que at o momento s havia pensado em si mesma. Seu olhar transformou-se, de zangado, em terno e suave.
- Querido Christopher! Voc me oferece uma oportunidade dessas, e eu aceitaria sem hesitar, se estivesse apaixonada por voc.
- Vamos! Deixe-me lev-la daqui! - ele implorou. Loretta acenou negativamente com a cabea.
- No posso fazer algo que ir arruinar sua vida e a minha, justamente por gostar muito de voc.
- Mas por qu? Por qu? - perguntou Christopher. - Eu a amo, e juro que farei com que me ame tambm. Quero que seja minha esposa.
Era difcil para Loretta explicar ao amigo que ele no era, de forma alguma, o "homem de seus sonhos".
Na verdade, Christopher era bondoso, solidrio, compreensivo, e ela gostava muito dele. Mas o que ele sugeria no era o que ela desejava da vida; no era o amor 
com o qual sempre sonhara. Loretta sabia que, quando o homem de seus sonhos surgisse, o reconheceria imediatamente.
Loretta estendeu a mo e Christopher segurou-a enquanto ela dizia:
- Obrigada, Christopher, por ser to compreensivo, mas a soluo para o meu problema no  fugir com voc;  tentar salvar-me de um casamento com um homem que no 
conheo. Para mim, esse marquis deve ser uma pessoa abominvel, por mais que meu pai o elogie.
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- No  correto seu pai fazer por voc uma escolha de importncia to vital como essa - disse Christopher em voz
um tanto baixa.
Ele sabia que seus argumentos no tinham muito peso, pois era comum um homem na posio do duque escolher o futuro marido da filha, sem dar ouvidos ao que ela pudesse 
dizer
sobre o assunto.
Embora o pai de Christopher fosse relativamente pobre, ele havia crescido numa sociedade que acreditava que "sangue azul" devia sempre se unir a "sangue azul". Tambm 
se acreditava que um homem que possusse um ttulo deveria assegurar um casamento vantajoso, que trouxesse terras para a
famlia.
O pai de Christopher jamais considerara, por um instante que fosse, que seu filho tivesse a chance de casar-se com Loretta. Por isso, sempre que podia, aconselhava 
o rapaz a escolher para esposa uma jovem que tivesse um grande dote.
- Quando se tornar o sexto baronete, meu filho - ele costumava dizer -, voc e sua famlia no tero os problemas financeiros que temos agora.
Christopher fez mais uma tentativa desesperada para no
perder Loretta.
- Prometa-me que, ao conhecer o marquis, se achar que ser impossvel casar-se com ele, vai dizer-me isso com toda a franqueza. Se for assim, eu a levo comigo. Ah, 
s Deus sabe como detesto at mesmo pensar nesse homem.
- Quer dizer que fugiremos?
- Poderemos nos casar obtendo uma licena especial disse Christopher. - Pelo menos, casar comigo no vai ser to assustador como casar com um estranho.
-  verdade - disse Loretta pensativamente. - Ao mesmo tempo, Christopher, vou lutar, e hei de encontrar um modo de impedir que papai anuncie meu noivado no baile 
que pretende oferecer na semana das corridas de Ascot, quando o duc e seu filho estiverem hospedados em casa.
- Por que ele no vem v-la antes disso? Acho tudo isso muito estranho. Afinal, o marquis deve estar, como voc, ansioso para que se conheam.
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-  exatamente o que eu penso, mas suponho que ele tambm esteja dominado pelo pai, e deve agir como o duc mandar.
- Se for assim, que tipo de homem ele ? Um homem tem que se impor! - disse Christopher com firmeza. - Estou achando essa situao ridcula. Para mim, cada um de 
vocs est bem confortvel em seu prprio pas, com o canal da Mancha entre ambos, e nenhum tem coragem de encontrar o outro.
Ele falou com violncia, como nunca costumava falar com Loretta, mas ela no pareceu estranhar; apenas disse:
- Isto me d uma ideia, Christopher!
- O que lhe d essa ideia?
- O que acaba de dizer. Se o marquis no vem me conhecer, por que no devo eu ir conhec-lo?
- Como poderia? O duc no a convidou para ir visit-los, e, como seu pai disse, ele talvez tenha razes para agir assim.
Christopher percebeu que estava sendo maldoso, mas, em matria de amor e de guerra, tudo  vlido. Fixando nele seus grandes olhos, Loretta disse:
- Voc  muito esperto, Christopher! Muito mais esperto do que eu imaginava!
- No estou entendendo aonde quer chegar.
- Estou pensando uma coisa - disse Loretta em voz baixa.
Christopher ficou alarmado.
- Escute, Loretta, no v fazer nenhuma tolice! No importa o que eu tenha dito, voc no pode ir para a Frana sem um convite do duc de Sauerdun. Isso causaria 
um escndalo, alm de compromet-la. Voc teria que se casar com o abominvel marquis.
- No sou to tola a ponto de fazer uma coisa dessas.
- Ento, no que est pensando? Por favor, diga-me logo!
- ele pediu, ansioso.
- Foi s uma ideia que eu tive - disse ela, rindo. - Obrigada, Christopher. Sinto-me bem melhor depois de lhe ter contado tudo isso. Mas agora preciso ir para casa.
- No! - protestou Christopher. - Vamos cavalgar juntos sob aquelas rvores. Voc me deve isto, depois de ter-me
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dado essa notcia to triste. vou ficar muitas noites sem dormir, sabendo que a perderei.
Impulsivamente, Loretta estendeu-lhe a mo.
- Voc nunca me perder completamente, Christopher. Faa eu o que fizer, sempre haver um lugar em meu corao
para voc.
Aquelas palavras encheram os olhos de Christopher de ansiedade. Loretta afastou a mo e partiu a galope, e Christopher seguiu-a, entrando ambos no bosque.
Dentro do bosque havia trilhas onde s passavam dois cavalos andando lado a lado; mais adiante havia uma clareira, pois algumas rvores haviam sido cortadas.
Era ali que eles sempre desmontavam para conversar. Loretta sabia que Christopher estava aborrecido e poderia querer beij-la, por isso no parou na clareira e seguiu 
deliberadamente para o outro lado do bosque.
Eles falaram muito pouco. Christopher estava contente s por estar ao lado dela, mesmo sofrendo.
Christopher era muito importante em sua vida, por ser seu nico confidente, seu nico companheiro, uma pessoa em quem podia confiar e a quem podia dizer qualquer 
coisa que lhe viesse  cabea. Mas no estava apaixonada por ele, e sabia que o sentimento que nutria pelo amigo jamais se transformaria em amor.
Quando, finalmente, saram do outro lado do bosque, ela despediu-se e, vendo a expresso triste no rosto do amigo, achou que havia sido cruel demais em lhe falar 
sobre seus
problemas.
Mas no podia recorrer a ningum mais, pois no confiava
em quem quer que fosse.
- Estarei esperando por voc amanh  tarde, Loretta. Se por acaso quiser ver-me antes, mande um bilhete por intermdio de Ben. Pode confiar nele.
- Acho que todos sabem que nos encontramos, exceto papai, claro. Mas ningum ousar contar-lhe.
- Espero que no.
Christopher havia marcado o encontro para a tarde porque
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havia muito o que fazer em suas terras, pela manh. Ele disse mais uma vez:
Bem, se precisar de mim, mande Ben me avisar, que virei encontr-la o mais depressa possvel.
- Muito obrigada, Christopher, por ajudar-me. J no me sinto to desesperada como antes.
- Cuide-se bem, Loretta.
Havia amor nos olhos de Christopher, e Loretta ficou comovida, mas intimamente reforou o propsito de que jamais se tornaria esposa dele, por mais desesperada que 
estivesse.
Cavalgando para casa sozinha, ela foi meditando sobre o que haviam conversado, e um nico pensamento invadia sua mente:
"Se o marquis no vem me ver, ento eu devo ir v-lo".
Mas ela no poderia ir a Paris como Loretta. Isso seria um erro. Se ela pudesse ver o marquis, se pudesse descobrir que tipo de homem ele era, como se comportava, 
e se depois de tudo viesse a descobrir que de fato ele era uma pessoa que odiaria, ameaaria seu pai, dizendo que fugiria se ele a obrigasse a casar-se com um homem 
to detestvel.
Loretta no tinha a menor ideia de algum lugar aonde pudesse ir, mas pelo menos poderia desaparecer por uns tempos, indo para onde ningum a pudesse encontrar.
Se desaparecesse por algumas semanas, ou mesmo meses, seu pai haveria de capitular. Apesar de ser um homem de gnio difcil e mesmo gritando com ela sempre que no 
conseguia as coisas a seu modo, ela sabia que, para o duque, agora que a me estava morta, ela era a pessoa mais importante do mundo, e que ele realmente a amava.
"Tenho que ver o marquis, mas como? "
Subitamente, como se em resposta a uma prece, ela lembrou-se de sua prima Ingrid.
Loretta sempre gostara muito de Ingrid, que era seis anos mais velha do que ela. Ingrid casara-se com a idade de dezessete anos, tendo feito o que se considerava 
socialmente "um casamento brilhante".
Seu marido, um homem trinta anos mais velho, o conde de Wick, era muito rico e de grande projeo social.
Agora Loretta compreendia que a prima no tivera escolha e fora obrigada a casar-se com o conde. Na verdade, Ingrid fora levada ao altar pela ambio dos pais, encantados 
de ver a filha, que mal terminara os estudos, ocupar um lugar to importante na sociedade.
Sem nada saber sobre os homens ou sobre o amor, Ingrid achava o marido um velho cansativo e obstinado.
O nico interesse do conde era que sua jovem esposa lhe desse um herdeiro para o ttulo e que fosse uma anfitri perfeita para receber os amigos, todos muito mais 
velhos do que
ela.
com o passar dos anos, Ingrid amadurecera e se tornara uma mulher lindssima. Era evidente que acabaria por apaixonar-se.
Certo dia ela conheceu o marqus de Galston, em uma
caada.
O conde de Wick, nessa poca, costumava deixar a esposa sozinha em sua casa de campo. Ele saa com os amigos para caadas ou ia a jantares em Londres, reunindo-se 
aos amigos de seu regimento. No outono ele preferia ir caar veados na Esccia, onde no era perturbado por mulheres.
Ingrid vivia sozinha, e como o marqus de Galston estava to desiludido como ela com o casamento, era inevitvel que fossem solidrios um com o outro.
O marqus casara-se ainda muito jovem com uma linda moa por quem acreditara estar profundamente apaixonado, at descobrir o quanto ela era inconstante e histrica. 
Em dois anos ela comeara a demonstrar sinais de perturbao mental. Finalmente, mesmo contra a vontade, mas a conselho mdico, ele acabara internando a mulher em 
uma clnica particular, com a superviso de enfermeiras que a ajudavam a conviver com sua
terrvel doena.
O marqus e Ingrid abriram seus coraes um ao outro, falando sobre seus problemas, e acabaram apaixonando-se.
O que sentiam um pelo outro era completamente diferente de tudo o que haviam experimentado antes.
Achando que a vida seria intolervel se tivessem que se separar, ambos fugiram, causando um escndalo que repercutiu nas famlias tanto do marqus como na do conde 
e do duque.
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Ingrid e o marqus passaram a viver em Paris, e nunca mais voltaram  Inglaterra. O conde divorciou-se depois de um longo e demorado processo que envolveu at um 
ato do Parlamento.
Infelizmente, mesmo estando livre, Ingrid no pde casar-se com o marqus, porque a esposa dele continuava viva, embora mentalmente irrecupervel.
Loretta lembrava-se de que em sua famlia fora proibido pronunciar o nome de Ingrid, mas de vez em quando ouvia-se algum cochicho sobre ela.
Mais tarde, quando algum voltava de Paris, sempre se perguntava sobre Ingrid e o marqus, com muita curiosidade na voz.
"Por acaso soube notcias de Ingrid e o marqus? "
Loretta ouviu perguntas desse tipo dezenas de vezes, e ficava atenta, temendo ouvir algum comentrio desagradvel sobre a prima que amava e que sempre havia sido 
bondosa para com ela.
Mas, e se a prima e o marqus estivessem separados, havendo morrido o amor que existia entre ambos? A notcia mais recente que ouvira fora de que Ingrid continuava 
linda, e que era sempre vista na pera ou em outros lugares pblicos.
Logicamente, uma pessoa respeitvel como o duc de Sauerdun no devia conhec-los.
Os dois viviam "em pecado", o que lhes fechava muitas portas, pois seu comportamento era considerado vergonhoso.
Agora, pensando em Ingrid, Loretta viu que uma luz se acendia na escurido em que se achava e onde havia sido lanada pelo pai.
Sua prima a compreenderia: Ingrid saberia, por experincia prpria, que seria impossvel Loretta casar-se com um homem sobre quem nada sabia, e que poderia ser to 
negligente em relao  esposa como havia sido o prprio conde de Wick.
Ao ver por entre a vegetao o castelo de seu pai, Loretta achou que havia algo austero e at mesmo duro naquela construo, que jamais notara antes.
Ento disse a si mesma, triunfante:
- vou procurar Ingrid e falarei com ela. Se papai no compreende o que sinto, Ingrid compreender!
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CAPITULO II
Nessa noite, ao jantar, o duque informou a Loretta que se ausentaria por uma semana.
- Estarei em Newmarket nos primeiros cinco dias. Depois vou passar dois dias em Suffolk, com seu primo Marcus.
- Marcus tem excelentes cavalos, no, papai?
-  por isso que pretendo ir at l.
Eles conversaram sobre diversos assuntos, e Loretta tomou o maior cuidado para no fazer a menor aluso ao duc de Sauerdun. Depois de ficar mais um pouco na sala 
de visitas, fazendo companhia ao pai, ela subiu e foi para seu quarto.
Durante o tempo todo em que conversava com o pai naquela noite, Loretta estivera planejando uma aventura to ousada que, s de pensar nela, ficava amedrontada.
Mas precisava fazer alguma coisa, pois suas objees no seriam consideradas, e ela acabaria casando-se com o marquis, a quem ficaria presa para sempre.
Na manh seguinte, em vez de ir cavalgar, que era a primeira coisa que costumava fazer depois de se levantar, Loretta foi
 vila.
L, em uma das casas do duque, vivia Marie, uma ex-empregada que havia trabalhado durante muitos anos no castelo, como costureira. Depois da morte da duquesa, ela 
preferira mudar-se para a vila, por no se dar bem com os outros criados.
Apesar de gostar muito de Marie, Loretta reconhecia que ela era uma mulher geniosa, talvez por ser francesa e sentir-se, na Inglaterra, "como um peixe fora da gua".
Marie viera para a Inglaterra como aia da esposa do embaixador francs. Quando sua ama voltara  Frana com o marido, ela preferira ficar na Inglaterra. Afinal, 
no tinha parentes em seu prprio pas e crescera fora dele.
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Era uma costureira muito habilidosa, e a duquesa relevava seu gnio difcil.
Loretta gostava muito dos vestidos que Marie fazia. Seu trabalho era perfeito, pois ela aprendera a costurar em um convento, na Frana.
Enquanto desmontava em frente da graciosa casinha, no fim da vila, e amarrava o cavalo na cerca de madeira, Loretta imaginava se Marie aceitaria ou no o que ia 
pedir.
Bateu  porta, e a prpria Marie atendeu sem demora. Loretta achou-a bem-disposta e muito conservada para seus cinquenta e cinco anos.
Mesmo no esperando visitantes, Marie vestia-se com a elegncia prpria de uma francesa.
- Milady! - exclamou ela ao ver Loretta. - Quelle surprise!
- Vim v-la para falar de um assunto muito importante disse Loretta entrando na casinha, que estava muito limpa.
Marie, como toda dona-de-casa francesa, punha diariamente sua roupa de cama na janela para tomar sol e arejar, e considerava os ingleses desleixados por no cultivarem 
esse costume.
- Aceitaria uma xcara de caf, milady?
- Oh, sim, Marie, obrigada!
A melhor maneira de quebrar o gelo quando conversasse com Marie seria tomarem juntas o caf excelente, com o qual Marie gastava uma boa parte de sua penso.
Enquanto a costureira se ocupava fazendo o caf e depois servindo-o em xcaras imaculadamente limpas, Loretta pensava no que iria dizer.
Era melhor contar logo toda a verdade. Ento, enquanto tomavam o caf, ela disse a Marie que o duque tinha a inteno de torn-la esposa do marquis de Sauerdun. 
Os olhos da ex-costureira brilharam.
- O duc de Sauerdun  um ilustre aristocrata! - ela exclamou.
- Sim, sei disso. Ao mesmo tempo, recuso-me a aceitar como marido um homem que nunca vi e que possa detestar. Tambm pode ser que ele me deteste.
Marie ficou calada, e Loretta continuou:
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- Decidi ir  Frana visitar minha prima Ingrid, que mora em Paris. Tenho certeza de que ela dar um jeito para que eu veja marquis sem ele saber quem eu sou.
Marie olhou para ela, atnita, mas seu crebro rpido captou exatamente o que Loretta pretendia fazer.
- C'est impossible, milady! - disse ela com firmeza. A condessa de Wick no  aceita por seu pai.
- Sei disso, mas Ingrid  a nica pessoa conhecida que mora em Paris. Tenho que ir procur-la e falar-lhe sobre meu plano. Portanto, quero que me acompanhe at Paris, 
a no ser que queira que eu v sozinha, o que me assusta. Partiremos
amanh.
Marie fitou-a de olhos arregalados, achando que Loretta
devia ter perdido o juzo.
- Amanh? Non, non! Ma petite, no pode fazer isso!
- Pois pode crer que  o que vou fazer. Ficarei muito aborrecida se no vier comigo, mas, se no me acompanhar, terei que ir sozinha. Como bem sabe, no posso recorrer 
a ningum. No confio nos criados l de casa. A primeira coisa que fariam seria contar a meu pai todos os meus planos.
- Isso  verdade. Aqueles criados idiotas iriam correndo contar a milorde, e ele ficaria muito zangado.
- Ficaria furioso! Voc sabe muito bem que no adianta eu tentar falar com meu pai e faz-lo ver a situao sob meu ponto de vista. Ele j tomou a deciso, e tm 
que ser como
ele quer!
Marie fez um gesto bem tpico dos franceses, o que significava
que era verdade o que ela dizia.
Tendo vivido no castelo durante muitos anos, ela sabia que o duque era extremamente autoritrio quando isso lhe interessava. Seus acessos de raiva assustavam a todos, 
desde o mordomo at o mais humilde lavador de pratos da cozinha.
- O que temos a fazer - foi explicando Loretta -  partir assim que papai for para Newmarket. Ele sair bem cedo, pois vai at a estao pegar o trem para Londres, 
e pretende chegar a tempo de almoar em seu clube, antes de seguir para
Newmarket.
Marie assentiu, e Loretta continuou:
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- Ns iremos de carruagem at a estao e pegaremos o trem que chega a Dover em tempo de tomarmos o vapor da tarde para Calais.
Marie ergueu as mos.
- Tem tudo planejado, milady! Mas j pensou na confuso que vai ser quando descobrirem que no est no castelo?
- Ningum vai saber que estarei indo para a Frana. Direi a todos que irei passar uns dias na casa de uns amigos, pois minha prima Emily ainda est de cama. Emily 
vai ficar muito feliz em se ver livre de mim e no ter nada para fazer at que papai volte.
Loretta segurou a mo de Marie, que olhara para ela, ligeiramente amedrontada.
- Por favor, ajude-me - ela suplicou. - Sabe muito bem que no devo ir para a Frana sozinha. Voc sabe como chegar at Paris, e poder ajudar-me a encontrar minha 
prima Ingrid quando chegarmos l.
Marie levantou-se, foi at um mvel e abriu uma das gavetas; pegou um mao de papis, e Loretta viu que eram recortes de jornais.
Por cima de todos eles, havia um que se referia a uma corrida de cavalos que havia sido vencida pelos cavalos do duque.
Debaixo, havia diversos recortes sobre o marqus de Galston e a condessa de Wick.
- Onde conseguiu esses recortes, Marie?
- Tenho uma amiga na Frana que no vejo h vinte anos, mas que me escreve regularmente; sabendo que gosto muito de corridas, mandou-me esses recortes sobre os cavalos 
de Sua Graa, quando eles ganharam corridas muito importantes. Ela tambm sempre manda jornais que acha que me podem interessar.
Loretta comeou a folhear os recortes apressadamente.
Havia uns quatro ou cinco que se referiam  beldade inglesa, a condessa de Wick. Um deles, o mais recente, mencionava que o marqus de Galston havia comprado uma 
casa nos Champslyses. A nota descrevia a decorao e os cmodos da casa, e terminava com a seguinte observao:
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"A anfitri das festas do marqus ser a linda condessa de
Wick".
Assim que Loretta terminou de ler, pensou em como seus parentes ficariam chocados se lessem aquela notcia, que se referia de maneira to crua ao relacionamento 
do marqus e
Ingrid.
Mas nada disso interessava, no momento. O importante era que j sabiam para onde se dirigir, quando chegassem a Paris.
Loretta deu mais uma olhada nos recortes, muitos deles j bem velhos, interessando-se pelos que se referiam aos cavalos
do pai. Depois disse:
- Obrigada, Marie. Sabia que me ajudaria. Estar pronta amanh cedo, s oito e meia, quando eu vier apanh-la?
Sem hesitar, Marie disse, com um sorriso:
- vou acompanh-la, milady, e ficarei muito feliz por rever
la belle France.
-  isso mesmo, Marie! Se tivermos sorte, estaremos de volta antes de papai voltar de sua viagem. Nem lhe passar pela cabea onde estive em sua ausncia.
Ao dizer isso, ela pensou em ir cruzando os dedos desde aquele momento. Confiava, entretanto, que tudo correria bem, e que era mesmo uma sorte poder contar com Marie.
- s oito e meia, Marie! - repetiu Loretta. - E obrigada
pelo caf!
Ao despedir-se de Loretta, Marie estava entusiasmada. Certamente j comearia a arrumar o que fosse preciso para a viagem.
Como ela mesma havia dito, seria emocionante voltar ao seu pas depois de tantos anos.
Ao chegar em casa, Loretta mandou chamar sua aia e disse-lhe para arrumar tudo o que fosse preciso para uma viagem.
- Ento vai viajar, mlady?
- Sim. vou passar uns dias com alguns amigos. Como ainda no falei com Sua Graa, por favor, no comente com ningum. Voc sabe que ele se preocupa com tudo. Confio 
em voc, Sarah, e peo-lhe que no mencione uma palavra aos outros
criados.
Sarah gostava muito de Loretta, e fez exatamente como lhe
fora ordenado.
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Loretta s esperava que seu pai no lhe fizesse perguntas excessivas sobre o que ela iria fazer na ausncia dele.
Felizmente, o duque estava preocupado demais com seus afazeres.
Como a filha no mais tocara no assunto de seu casamento com o marquis, ele supunha que ela havia aceitado o fato, e, por isso, estava de muito bom humor.
- Cuide-se bem em minha ausncia - disse ele. - Espero que sua prima sare logo, assim voc no ficar to sozinha.
- Sentirei muito sua falta, papai. Mas sabe que fico feliz cuidando dos cavalos, portanto, no se preocupe comigo. Quando Emily melhorar, quem sabe poderemos ir 
fazer algumas compras.
O duque ia perguntar por que esse interesse em fazer compras, mas no disse nada, imaginando que tipo de compras a filha iria fazer. Ento, deu um sorriso de contentamento.
Mulher nenhuma poderia resistir  fascinao de comprar um enxoval. Ele estava certo de que qualquer sentimento rebelde de Loretta logo desapareceria quando ela 
estivesse comprando roupas novas, e, principalmente, quando estivesse escolhendo seu vestido de noiva.
O duque partiu na manh seguinte, todo afobado, receando perder o trem.
No ltimo instante, viu que ia esquecendo de pegar uns papis, e os criados tiveram que correr de um lado para outro, para cima e para baixo, em grande agitao.
Quando ele partiu, afinal, ainda no eram oito horas, e Loretta teve tempo suficiente para fazer o que queria.
Ordenou que preparassem uma carruagem com os cavalos mais velozes, e foi pegar o passaporte que o pai guardava na gaveta de uma mesa. Esse passaporte era apenas 
uma folha de papel com os dados impressos e com a assinatura do ministro das Relaes Exteriores.
O duque j o usara diversas vezes. Ainda havia o nome da me de Loretta no passaporte. Foi fcil para Loretta escrever seu nome ao lado do da me, e ficou to perfeito, 
que ningum suspeitaria que no tivesse sido escrito por uma autoridade.
Subitamente, Loretta lembrou-se de que no havia perguntado
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a Marie se ela ainda tinha passaporte. Mas acreditava que uma mulher to cuidadosa no jogaria fora um documento to importante, mesmo vivendo na Inglaterra h tanto 
tempo.
Ao chegar  casa de Marie, encontrou-a esperando  porta, com muito pouca bagagem. Preocupada, perguntou-lhe:
- Est levando o passaporte, Marie?
- Oui, oui! Eu no iria perder uma coisa to preciosa! Marie entrou na carruagem, depois de ter trancado a porta
e guardado a chave na bolsa.
Olhando para a ex-costureira, Loretta achou que ela parecia mesmo uma aia, vestindo uma capa preta que a agasalhava bem. Seu chapeuzinho, tambm preto, tinha fitas 
que o prendiam sob o queixo. O nico toque colorido era uma echarpe azul ao redor do pescoo.
Seus cabelos grisalhos estavam impecveis, e os olhos brilhavam, demonstrando o quanto ela estava excitada.
Loretta mais uma vez pensou que tivera muita sorte em poder contar com a companhia de Marie nessa aventura perigosa.
Elas pegaram um trem que as levou at um entroncamento. Felizmente, tiveram que esperar apenas vinte e cinco minutos para tomarem outro, que vinha de Londres, com 
destino a Dover. O trem chegou  costa a tempo de elas tomarem o vapor que atravessava o canal da Mancha.
Loretta no esquecera que precisariam de muito dinheiro, e, como no podia pedi-lo ao pai, lembrara-se de que ele guardava o dinheiro das despesas imediatas do castelo 
numa gaveta de
sua escrivaninha.
Era o secretrio do duque quem pagava- os criados, mas o duque no confiava em ningum, e ia dando ao secretrio o
que fosse necessrio.
Havia uma soma considervel na gaveta, e Loretta pegou um pouco mais do que achava que seria necessrio. Mas no quis ser ambiciosa demais e deixar pouco dinheiro 
na gaveta, o que causaria problemas para o secretrio. Este j era um homem de idade e parecia estar sempre preocupado, como se carregasse todos os problemas do 
mundo nas costas.
Para no compromet-lo, Loretta pedira ao mordomo, antes de partir:
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Por favor, avise ao sr. Miller que Sua Graa deu-me
algum dinheiro da sua gaveta especial, para eu levar comigo nesta visita que vou fazer.
Est bem, milady - respondera o mordomo.
Loretta conseguira sair de casa sem confuso nenhuma. Agora podia ver o marquis e formar uma opinio sobre ele; depois voltaria para casa sem ningum suspeitar que 
ela estivera na Frana.
Tendo dinheiro suficiente, ela pde pagar por uma cabina no vapor, e, para deixar Marie ainda mais feliz, pediu ao camareiro que lhes trouxesse caf e bolachas imediatamente.
Mas Loretta no comeu nem bebeu nada, receando enjoar.
- Acho melhor comer quando estivermos no trem. O mar est um pouco revolto - disse ela.
- No tenho medo do mal de mer. Quando vim da Frana para c, h muitos anos, o navio no era to grande, e todos os passageiros passaram muito mal, menos eu. Sou 
muito boa marinheira.
- Espero que eu seja to boa marinheira como voc respondeu Loretta.
Ela pensava que, se viesse mesmo a se casar com o marquis, teria que se acostumar quela travessia, se quisesse visitar a Inglaterra frequentemente.
Loretta achou estranho que o marquis sempre ficasse na Frana, j que o duc no perdia uma corrida importante na Inglaterra.
Da mesma forma, seu pai assistia constantemente s corridas de Chantilly e Longchamps.
O vapor chegou a Calais em duas horas, porque o vento estava favorvel. O trem para Paris j estava na plataforma.
Loretta pediu a Marie que conseguisse para elas a melhor acomodao possvel, e ela conseguiu um vago particular. Esse trem de Calais a Paris era mais moderno, 
e permitia a passagem de um vago para outro, sistema que havia sido introduzido nove anos antes. Por isso havia funcionrios muito atenciosos, sempre dispostos 
a trazer para os passageiros tudo o que eles Precisassem.
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Depois de uma refeio excelente, Loretta repassou seus
planos.
Ela no dormira bem na noite anterior, preocupada, pensando que, no ltimo instante, alguma coisa pudesse impedi-la de partir. Mas, agora que tudo corria bem, logo 
adormeceu.
Quando acordou, j era bem tarde. O trem chegaria a Paris em meia hora.
- Ainda no me disse, milady, se quando chegarmos a Paris iremos para a casa do marqus de Galston ou para o hotel.
Loretta, na verdade, ainda no pensara nisso, mas disse,
afinal:
- Vamos tentar primeiro ir at a casa do marqus de Galston. Se todos j estiverem dormindo, deixaremos para
amanh. Marie riu.
- Em Paris ningum se deita cedo!
Quando elas chegaram  Gare du Nord, era quase meia-noite. Um carregador conseguiu-lhes um fiacre, e as duas rumaram para a Avenue ds Champs-lyses.
- Se a casa estiver s escuras e no virmos nenhuma luz nas janelas - disse Loretta -, iremos para o Hoteu Meurice. Sei que papai sempre se hospeda l quando vem 
a Paris.
Marie pensava que no ficava bem uma moa solteira, mesmo acompanhada de uma aia, hospedar-se em um hotel, mas no teceu nenhum comentrio.
O fiacre entrou na Avenue ds Champs-lyses e logo parou em frente a uma manso toda cercada de grades com ponteiras
douradas.
Loretta viu que havia inmeras carruagens particulares, com
criados de libr, esperando em frente  casa.
Diversos criados seguravam tochas para iluminar o caminho
de entrada.
Imaginou que o cocheiro se enganara e havia parado diante
da casa errada.
- Tem certeza de que  esta casa? - perguntou ela em excelente francs. -  esta a manso do marqus de Galston?
- Oui, oui, madame, c'est vrai! - disse o cocheiro.
- Espere um minuto, milady - disse Marie. - vou verificar.
Ela desceu do fiacre, foi at a porta de entrada e conversou com um criado que usava uma libr luxuosa, com gales dourados.
O criado e Marie gesticulavam, e Loretta lembrou-se de que os franceses pareciam incapazes de falar sem movimentar as mos.
Logo Marie voltou, toda sorridente.
- Est certo, milady. Esta  a casa do senhor marqus, e esto dando uma festa.
Loretta sentiu uma sbita timidez.
- Talvez. - ela comeou a dizer.
Nesse instante o criado que havia seguido Marie abriu a porta e ela viu-se obrigada a descer.
- Talvez seja melhor pedirmos para o cocheiro esperar, Marie, caso no sejamos bem-vindas.
Tarde demais. Marie j havia dado ordens para que descessem a bagagem e pagava o cocheiro com alguns francos que elas haviam trocado no vapor, apesar de Loretta 
achar que o cmbio no fosse nada favorvel.
Tudo o que tinham a fazer agora era seguir o criado. Elas entraram no hall muito grande, decorado com enormes vasos cheios de flores exticas. Vrios convidados 
desciam as escadas, rindo e conversando, vindo com certeza do salo que ficava no primeiro andar.
Quando Loretta chegou ao topo da escada, um criado perguntou:
- A quem devo anunciar, mademoiselle?
Enquanto ele falava, Loretta viu, por sobre o ombro dele, Ingrid parada perto da porta, lindssima, cheia de brilho, com jias nos cabelos, ao redor do pescoo e 
nas orelhas.
Loretta ficou parada olhando para a prima, enquanto o criado esperava que ela lhe dissesse seu nome. Ingrid virou-se e, vendo-a, no escondeu seu espanto. Ento, 
Loretta correu ao encontro.
- Ingrid! Lembra-se de mim? - ela perguntou, quase sem ar.
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- Loretta! O que est fazendo aqui?
- Vim para v-la. Precisava v-la! Ingrid parecia cada vez mais confusa, e Loretta disse:
- Papai no sabe que sa da Inglaterra, mas eu tive que vir v-la, porque s voc poder ajudar-me.
Muito perturbada, sem poder pensar claramente, Ingrid apenas beijou a prima e disse: 
- Claro, querida, farei tudo o que puder por voc. Onde
est hospedada?
- Ficarei aqui, se puder receber-me.
Novamente Ingrid olhou para Loretta, como se no tivesse entendido bem o que ela dizia. Ento disse rapidamente:
- Precisamos conversar sobre isso. Mas espere um pouco. Meus convidados esto indo embora, deixe-me despedir deles
primeiro.
- Claro - disse Loretta. - Peo-lhe desculpas por surgir
assim to de repente.
Ingrid virou-se e despediu-se de um homem que estava de
p, esperando por ela.
- Au revoir, monsieur!
- Au revoir, milady - respondeu o cavalheiro. -  desnecessrio dizer que jamais passei uma noite to agradvel. A conversa foi muito interessante. Espero que me 
convide novamente, dentro em breve.
- Claro! Como poderemos ter uma festa sem o senhor?
O francs beijou a mo dela e saiu. Ingrid despediu-se de outro cavalheiro e quase a mesma conversa se repetiu.
S quando o ltimo convidado se retirou e o marqus o acompanhou at o alto das escadas, foi que Loretta notou que no havia mulheres naquela festa.
Os convidados eram homens exclusivamente, alguns deles j idosos, mas todos muito distintos.
Ingrid voltou-se novamente para a prima, dizendo:
- Agora, Loretta querida, conte-me tudo o que est acontecendo. No posso imaginar o que esteja fazendo aqui em Paris, como voc disse, sozinha!
- Marie veio comigo. Lembra-se de Marie, que costurava
para ns, no castelo?
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- Sim, claro, lembro-me dela. Ningum mais sabe que veio me procurar?
- Ningum - disse Loretta com um sorriso. - Papai foi para as corridas de Newmarket. Vai ficar fora uma semana, e no tem a menor ideia de que eu esteja na Frana.
O marqus vinha ao encontro delas, e Ingrid disse:
- Hugh, querido, o que devo fazer? Esta  minha prima, Loretta Court, que acaba de chegar a Paris para me ver. Ela diz que precisa de minha ajuda.
- Ento,  claro que deve ajud-la - respondeu o marqus. Ele era um homem muito bonito, e Loretta pde entender
por que a prima se apaixonara por ele. Ele lhe apertou a mo, dizendo:
- Muito prazer em conhec-la, Loretta. Bem-vinda  nossa casa, embora no esperssemos sua visita!
Loretta olhou para ele com um ar suplicante.
- Por favor, deixe-me ficar com vocs por alguns dias. Estou com um problema, um terrvel problema, e a nica pessoa que pode me ajudar, e que sei, me compreender, 
 Ingrid!
- Mas  claro que pode ficar aqui! - disse o marqus. Ele olhou para Ingrid, e esta disse baixinho:
- Ser conveniente deixarmos que ela fique? Afinal.
- Ningum vai ficar sabendo que estou aqui - disse Loretta depressa. - E ser melhor que eu use outro nome, por razes que depois lhe explicarei. Avisei Marie para 
no dizer quem sou at que eu conversasse com voc.
- Sendo assim, tudo fica mais fcil - disse Ingrid ainda em voz baixa. - Ao mesmo tempo, tenho certeza.
- Pare de se preocupar - disse o marqus. - Sei exatamente o que est pensando, querida, mas o que importa  que j  muito tarde, e sua prima esteve viajando o 
dia todo. Acho melhor oferecermos a ela algo para comer e beber. Depois cuidaremos dos problemas.
- Isso mesmo, querido Hugh. Voc  sempre muito sensato.
Ela falou com uma voz to terna e havia tal brilho no olhar, que Loretta percebeu que ela continuava apaixonada pelo homem com o qual havia fugido.
Ingrid deu o brao  prima e disse:
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- Vamos sentar-nos em uma sala mais aconchegante. Hugh vai servir-nos uma taa de champanhe.
- Primeiro vou mandar os criados trazerem a bagagem de Loretta para o quarto dela - disse o marqus. - Depois vou dar ordens para que acomodem a aia.
- Tenho certeza de que Marie se sente em casa - disse Loretta a Ingrid. - Ela ficou to excitada com esta oportunidade de vir  Frana!  de confiana, e nunca vai 
contar a meu pai que estive aqui.
- Ainda no posso acreditar que esteja em Paris. Mas voc sabe, querida, que, por muito que eu a ame, no fica bem para voc procurar a minha companhia.
- Tudo isso  tolice! Se vocs vivem felizes, acredito que fizeram o que devia ser feito. Justamente por ter passado por tudo o que passou, precisando at fugir, 
 que recorro a voc
para me aconselhar.
- No est dizendo... Mas voc  muito jovem para...
- gaguejou Ingrid, atrapalhada, e Loretta disse depressa:
- No, no estou fugindo com ningum! Estou fugindo do homem que papai escolheu para ser meu marido!
Ingrid havia aberto a porta de uma sala muito bonita e confortvel.
Assim que Loretta entrou na sala, sentiu como era aconchegante, e imaginou que ali a prima e o marqus deviam passar a maior parte do tempo quando queriam estar 
a ss.
Ingrid ajudou Loretta a tirar o casaco de viagem e o chapeuzinho que lhe cobria os cabelos loiros.
- Sente-se, querida. No posso acreditar, em primeiro lugar, que esteja aqui, em segundo, que j esteja em idade de se casar.
- Claro que estou! J fiz dezoito anos. S no fiz minha apresentao no Palcio de Buckingham no ano passado porque estava de luto pelo falecimento de mame.
- Mas no vai ser apresentada este ano?
- No tenho tomado parte em nenhuma das festas da temporada. Mas papai prometeu que eu seria apresentada ainda este ano; tambm quer anunciar meu noivado logo depois 
das corridas de Ascot, e quer que eu me case em seguida.
- Mas por qu? Para que toda essa pressa?
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-  o que estou disposta a descobrir! Por isso vim procur-la.
Sinto-me lisonjeada por ter feito isso, mas voc pode ser prejudicada. Ainda no entendi como poderia ajud-la. Loretta ficou em silncio por um momento, depois 
disse:
- O marido que papai escolheu para mim  filho de um nobre que ele sempre encontra nas corridas e que na verdade o impressiona muito.  o mar quis de Sauerdun!
O silncio que se seguiu foi muito significativo para Loretta, que ficou observando a reao da prima. Depois Ingrid disse, incrdula:
- Est dizendo que seu pai deseja que voc se case com Fabian, o marquis de Sauerdun?
- Exatamente. J decidiu que eu vou me casar com ele.
- Mas, no! Isso  impossvel! Terminantemente impossvel! Pode casar-se com qualquer um, menos com Fabian!
A voz dela elevou-se, e Loretta ficou olhando para ela, assustada. Ingrid moderou a voz:
- Eu no devia falar desse jeito, deixando-a alarmada. Mas voc  to jovem, to linda! Sabe que sempre a amei, querida, e jamais vou desejar que faa um casamento 
que a torne infeliz, como aconteceu comigo.
- Por isso recorro a voc - disse Loretta com simplicidade.
- Eu sabia que me compreenderia. Papai simplesmente no me ouve quando digo que preciso conhecer meu futuro marido antes de ele ir para a Inglaterra. vou acabar 
ficando noiva de um homem que no conheo.
- Isso  intolervel! Como pode o tio Arthur, que sempre admirei, trat-la dessa forma?
- Voc sabe como ele  quando toma uma deciso. Sempre teve muita admirao pelo duc de Sauerdun, porque ele possui excelentes cavalos de raa.
- Cavalos de raa so uma coisa, casamento  outra!
- Imagine se posso dizer isso a papai! Ele no me d ouvidos!
- A mim  que ele no ouviria! - disse Ingrid, fazendo uma pequena careta.
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Percebendo a nota de amargura na voz da prima e lembrando-se de sua situao, Loretta disse:
- Sempre tive muita vontade de saber se voc era feliz com o marqus e se valia a pena fugir, deixando tudo, como
vocs fizeram.
- Foi a coisa mais sensata que fiz em toda a minha vida
- respondeu Ingrid. - Agradeo a Deus todos os dias por me conceder a felicidade que tenho ao lado de Hugh. Ao mesmo tempo, minha querida priminha, esta vida no 
 para voc,
com essa idade.
Loretta parecia confusa, e Ingrid explicou:
- Suponhamos que. voc se case com Fabian de Sauerdun e descubra que ele  um marido insuportvel, totalmente insuportvel. Mais cedo ou mais tarde, tenho certeza 
de que voc far o que eu fiz. Acabar encontrando um homem que a compreenda, que a ame, que ser bondoso como Hugh  para mim, e acabar fugindo com ele.
Loretta suspirou.
-  esse tipo de amor que eu desejo encontrar.
- Claro que  o que deseja. Todas ns desejamos.
- Est convencida de que no encontrarei esse tipo de amor
com o Marquis?
- Eu diria que  impossvel para qualquer mulher ser feliz
com ele por muito tempo.
- Mas por qu?
-  difcil explicar, mas entender quando o conhecer.
-  exatamente por essa razo que estou aqui! Ingrid olhou surpresa para a prima, e esta explicou:
- Quero que pense em um modo de eu conhecer o marquis sem ele saber quem eu sou. Quero v-lo como homem, simplesmente, no como um marido j arranjado para mim. 
- Ela respirou fundo. - Quero explicar a papai exatamente por que me recuso a casar com ele, mesmo que papai fique furioso comigo, mesmo que me castigue por recusar 
uma ordem sua.
- Agora compreendo por que veio me procurar. Mas vai ser difcil, muito difcil Fabian prestar ateno em voc.
- No estou entendendo.
Ingrid sorriu e pareceu ainda mais adorvel. 40
- Fabian de Sauerdun  o homem mais querido pelas mulheres,  o mais aclamado, o mais festejado de toda Paris! No h mulher que no corra atrs dele! Elas caem 
em seus braos antes que ele tenha tempo de lhes perguntar o nome!
Loretta olhava para Ingrid, abismada, e a prima prosseguiu:
- Quando ele as abandona, pois logo se cansa de amores fceis, elas ficam desoladas, de corao partido, e tentam at o suicdio!
- Suicdio!
- J se comenta em toda Paris que ele  um moderno Casanova, um homem que despedaa os coraes, mas que no consegue ser fiel a mulher nenhuma por mais de dois 
meses.
Ao terminar de falar, Ingrid deu um suspiro e exclamou:
- Ah, Loretta, pobrezinha! Como poder suportar viver ao lado de um homem assim?
- No poderei mesmo. Era isso que queria descobrir: que tipo de homem  o marquis. Infelizmente, vou ter que convencer papai, e duvido que ele me oua.
Enquanto falava, pensava que a nica soluo que lhe restava era fugir com Christopher.
Apesar de ter visto Ingrid e o marqus juntos por apenas alguns minutos, logo notou que o que sentia pelo outro era algo que jamais sentiria por Christopher Willoughby, 
nem em um milho de anos.
- No sei o que fazer para ajud-la! - disse Ingrid em voz baixa.
- Tenho que ver o marquis!  muito importante que eu mesma tenha uma opinio sobre ele - disse Loretta. - O que lhe peo, Ingrid,  que me vista bem e me d um novo 
nome. Quero conhecer o marquis fazendo-me passar por uma amiga sua, e no sendo a filha do duque de Madrescourt.
Ingrid olhou bem para ela.
- Imagino que quem esteja por trs disso tudo seja no s seu pai, mas o pai de Fabian tambm.
-  isso mesmo - concordou. Loretta. - Tenho certeza de que o marquis no tem a menor vontade de se casar comigo, como eu no tenho de me casar com ele. Foram nossos 
pais que arquitetaram esse casamento durante as corridas.
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Loretta franziu a testa e continuou:
- O que ainda no consegui entender  por que o duc parece ter tanta pressa de realizar esse casamento.
- A isso eu posso responder. O duc est muito preocupado porque Fabian est envolvido com uma mulher muito bonita, um tipo extico, e  bem possvel que esteja disposto 
a se
casar com ela.
- E por que no se casa?
- Se ela fosse uma demi-mondaine, no haveria problema, pois num caso desses nem se pensa em casamento. Mas a mulher, em questo  bem-nascida, e, embora no seja 
do nvel dos Sauerdun,  o que se pode chamar uma lady.
Ingrid deu um sorriso e prosseguiu:
- Ela tambm j foi casada por pouco tempo com um homem que podia ser considerado, sem sombra de dvida, um
cavalheiro.
- O que  uma demi-mondaine?
Por um momento Ingrid olhou para ela, dizendo, depois de
uma pausa:
- Digamos que seja o nome que se d a uma mulher de...
diferente nvel social.
- O duc est determinado a que o filho faa um excelente
casamento.
- Claro. E quem melhor do que voc para ser sua nora?
Loretta ficou de p.
- No me casarei com o marquis! Tenho que convencer papai de que isso  impossvel! Mas primeiro preciso convencer a mim mesma. Por favor, Ingrid, d um jeito de 
eu conhecer Fabian! S assim poderei ter argumentos suficientes para fazer papai ver que h muitos outros homens no mundo alm do filho do duc de Sauerdun.
Ingrid deu um profundo suspiro.
- Vai ser muito difcil, Loretta! Mas, para evitar que estrague sua vida, como aconteceu comigo, farei tudo o que me pede, querida!
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CAPITULO iii
- A primeira coisa que precisa entender - dissera Ingrid
-  que Fabian no vai prestar a menor ateno em voc se continuar com esse jeito de jeune-fille.
Loretta no escondera o seu espanto, e a prima explicara:
- Em geral, os homens experimentados ignoram as jovens, principalmente porque tm medo de serem pressionados a se casar. Portanto, pode imaginar que as mais lindas 
mulheres, sejam elas da Frana ou da Inglaterra, fazem questo de encorajar essa ideia. Tenho certeza de que Fabian no conversa com jovenzinhas, a no ser que sejam 
suas parentas.
- Ento, se eu quiser conversar com ele, que devo fazer?
- perguntara Loretta, meio desalentada.
Agora ela se achava recostada nos travesseiros, em sua cama confortvel, enfeitada com um lindo cortinado. O quarto era suntuoso, mobiliado no estilo Lus XIV, que 
ela tanto apreciava.
Marie havia trazido o caf da manh para Loretta, s oito horas, e falava sem parar, mais parecendo um periquito, excitada por estar de volta  sua querida Frana. 
Avisara a Loretta que ficasse na cama at que a condessa viesse v-la.
- Esta casa  linda, milady! - disse Marie, que no se cansava de admirar tudo. - Todo mundo vive to feliz aqui!  sempre assim na Frana!
Seu modo de falar era quase uma provocao. Loretta teve que se controlar para no rir, pois sabia que Marie queria dizer que os ingleses eram muito diferentes dos 
franceses, mas nem sempre se expressava bem.
Loretta tomou o caf fragrante e muito mais gostoso do que ? que tomava em sua casa. Comeu tambm alguns croissants quentinhos e leves, acabados de sair do forno.
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Nesse instante Ingrid entrou no quarto. Usava um nglig, e estava to linda que Loretta podia entender por que o marqus a olhava com verdadeira adorao nos olhos.
- Dormiu bem, minha querida? - perguntou Ingrid, sentando-se na beira da cama.
- Dormi como uma pedra! Alm de cansada, sentia-me to agradecida a voc e to aliviada por ter chegado at aqui, que at consegui esquecer um pouco minhas preocupaes.
- Receio que ainda tenha muitos aborrecimentos, minha querida prima. Passei a noite acordada pensando nesse seu problema, e cheguei  concluso de que  um dos mais 
difceis que j tive que resolver!
Ela fez uma pausa e disse, com um sorriso travesso:
- Exceto, claro, quando tive que decidir se devia ou no
fugir com Hugh!
- Foi muito difcil para voc?
- Foi muito difcil, porque no queria mago-lo, pois o amava demais. Ainda receio que ele venha a lamentar um dia por ter renunciado  sua casa ancestral,  grande 
fazenda e
aos amigos.
- Assim que o vi, notei que ele parece um homem muito
feliz.
Ingrid juntou as mos.
- Tento faz-lo feliz, e rezo para que um dia, se Deus for misericordioso, possamos nos casar e ter os filhos que ambos desejamos to desesperadamente.
Loretta sabia que a prima se referia  esposa do marqus. Se ela morresse, tudo correria s mil maravilhas para eles. Sem poder evitar, perguntou:
- Quando vocs se casarem, pretendem voltar  Inglaterra?
-  o que sempre me pergunto - respondeu Ingrid em voz baixa -, mas acho que a resposta  inquietante. Mesmo casando-me com Hugh depois que a mulher dele morrer, 
ser difcil voltarmos para a Inglaterra, talvez por muitos anos.
Havia tristeza na voz de Ingrid. Loretta compreendia que seria embaraoso para o conde de Wick se sua ex-esposa voltasse para o seu pas. As pessoas talvez continuassem 
sendo indelicadas com Ingrid.
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Tambm seria muito difcil a famlia Court perdoar a prima. Todavia, como a nanny de Loretta costumava dizer, o tempo cura todas as feridas.
As geraes mais velhas poderiam desaprovar o comportamento de Ingrid e estarem determinadas a puni-la pelos seus pecados. As mais jovens, entretanto, a aceitariam 
como marquesa de Galston, uma vez que seu marido era rico e importante.
Impulsivamente, Loretta ps a mo sobre a de Ingrid e disse:
- vou rezar muito, muito, prima querida, para que um dia seja feliz como merece.
- Sou muito feliz agora! Mas no quero que voc cometa erros. O meu maior erro foi casar-me aos dezessete anos, com um homem trinta anos mais velho do que eu.
- Bem, pelo menos disso eu no posso acusar meu pai disse Loretta com um sorriso.
-  verdade, mas sua situao no vai ser muito diferente da minha.
- Por que diz isso?
- Porque a maioria dos franceses, e Fabian no ser exceo, deixam suas esposas no campo cuidando dos bebs, enquanto eles se divertem em Paris com mulheres glamourosas, 
que granjearam para a capital da Frana a fama de ser um lugar invejvel ou de perdio, dependendo do ponto de vista.
Loretta riu.
- Sei muito bem o que nossos parentes pensam de Paris, especialmente porque voc vive aqui.
- No precisa me contar, pois posso avaliar o que dizem! Mas o que me preocupa, querida, no  que Fabian se sinta atrado pelos prazeres de Paris, mas que ele venha 
a despedaar seu corao, como j fez com o de tantas mulheres.
- Entendo o que diz, por isso estou decidida a provar a papai que ele , como voc disse, um moderno Casanova, e que no devo casar-me com ele. Um casamento desses 
me faria infeliz, e eu tentaria encontrar algum to encantador como
O seu marqus.
Ingrid deu um pequeno grito de horror.
- Como pode estar imaginando uma coisa dessas se nem
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chegou a se casar? Eu tive muita sorte de Hugh ser um homem diferente da maioria dos ingleses. Ele me ama de todo o corao e com toda a sua alma, e no se lamenta 
por ter perdido o que era importante para ele antes de me conhecer. Sua voz tornou-se mais suave.
- Sei muito bem que qualquer outro cavalheiro ingls estaria sentindo saudades de praticar tiro ao alvo no outono, caar no inverno e, mais do que tudo, haveria 
de sentir falta de seus clubes, onde sempre se reuniria com os colegas do colgio e da universidade. Se Hugh sentiu saudades, algum dia, de qualquer uma dessas coisas, 
nunca deixou transparecer. Mas voc pode compreender que vivo inquieta, sempre esperando que um dia ele, pela primeira vez, se arrependa de ter feito uma coisa socialmente 
to condenvel como fugir com a esposa de outro homem.
O modo como a prima falava era to comovente que Loretta
s pde abra-la e beij-la. Depois disse:
- Admiro-a por estar sendo to franca comigo, e compreendo o que tem passado. Portanto, ajude-me, para que eu no me venha a encontrar na mesma situao.
- J pensei muito no que poder ser feito, e a soluo que Hugh e eu encontramos, e que pode parecer ousada demais,  que voc se encontre com Fabian de uma maneira 
que pode ser considerada. repreensvel.
- Como? O que quer dizer? - perguntou Loretta, nervosa.
- Na verdade, Fabian vem almoar hoje aqui em casa.
- Hoje?
- Sim. Hugh queria cancelar esse almoo, mas achei que  melhor no escondermos voc. Entretanto, em Paris as notcias voam, e a menos que sejamos muito cautelosos, 
logo todos estaro sabendo que uma linda jovem est hospedada em nossa
casa.
- Ento, o que posso fazer? - perguntou Loretta, ansiosa.
A ideia de que Ingrid poderia mand-la para um hotel lhe passou pela cabea, deixando-a assustada.
- O que temos a fazer - disse Ingrid vagarosamente 
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 transformar esta jovenzinha em uma mulher mais madura, da minha idade, e casada.
Loretta olhava para a prima, de olhos arregalados.
Voc parece uma criana, mas se a vestirmos com roupas mais sofisticadas e se usar uma maquilagem mais carregada, como se usa em Paris, duvido que Fabian no acredite 
que voc seja quem lhe diremos que .
Ingrid deu uma risada.
- Uma coisa  absolutamente certa: ele no vai esperar que uma jovem e pura debutante se hospede na casa da to falada condessa de Wick!
- Se deve me fazer passar por uma mulher casada, que direi sobre meu marido?
- O menos possvel. Obviamente, sendo ingls, seu marido no  atencioso, nem delicado, e prefere os esportes  companhia da esposa. Se no fosse assim, ele no 
a deixaria vir a Paris. Podemos at insinuar que seu marido tem outros "interesses" alm da esposa.
- Outros. interesses?
Ingrid percebeu como a prima era inocente, e explicou depressa:
- Interesses como esportes, cavalos, e, claro, ele poderia estar. enamorado de uma linda atriz.
- J entendi!  uma tima ideia, e justifica minha presena em Paris sem ele.
- Exatamente! Agora, querida, levante-se, e vamos comear a sua transformao para o papel que vai representar.
Acabando de dizer isso, ela levantou-se, e Loretta, saltando da cama, atravessou o quarto e foi at a janela.
- Estou to contente por estar em Paris! com marquis ou sem marquis, preciso ver um pouco da mais excitante capital de todo o mundo.
- Paris  encantadora nesta poca do ano em que as castanheiras esto em flor. Claro que vai conhecer a cidade, querida. Quero que esta sua primeira visita  capital 
da Frana seja inesquecvel, apesar de seus aborrecimentos por causa desse horrvel marquis.
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Achando que j haviam conversado demais, Ingrid comeou a instruir Loretta sobre o que fazer, como se ela estivesse no palco. Afinal, para serem bem convincentes, 
ambas teriam que ser boas atrizes.
Enquanto Loretta tomava banho, Ingrid foi ao seu quarto
para vestir-se tambm.
Ao voltar, uma criada a acompanhava, trazendo uma pilha
de vestidos nos braos.
- Para comear, vou emprestar-lhe minhas roupas, pois no temos tempo de fazer compras. Mas, se for ver Fabian novamente, deve comprar vestidos novos. Em Paris, 
onde a moda  atualssima, encontrar modelos maravilhosos, que poder usar quando voltar para casa, se no este ano, certamente no
ano que vem.
Passou pela cabea de Loretta que o que iria comprar j poderia ser parte de seu enxoval. Mas afastou esse pensamento e concentrou-se no que a prima lhe dizia.
Primeiro Ingrid insistiu em que ela usasse um espartilho preto de um modelo que ela nunca tinha visto antes.
- Seu corpo  perfeito, mas ficar ainda mais na moda se afinarmos sua cintura ao mximo. Isso quer dizer, goste ou no, apertar bem os cordes!
Na verdade, Loretta no achou o espartilho incmodo; apenas limitava um pouco seus movimentos e a deixava muito
ereta.
Ingrid fez com que a prima experimentasse um vestido aps outro, at encontrar um apropriado. Era azul, da mesma cor dos olhos de Loretta, de um modelo sensacional, 
mas no vistoso demais, o que s os grandes estilistas e costureiros franceses conseguiam.
Tinha detalhes de um azul mais escuro, o que lhe dava um ar chique e o tornava diferente de tudo o que Loretta j vestira em toda a sua vida.
Escolhido o vestido, a criada comeou a arranjar-lhe o penteado, num estilo tipicamente francs. Todo o cabelo foi levantado para o alto da cabea, e ficou to bonito, 
que Marie exclamou:
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- C'est merveilleux, milady! Muito diferente das jeunesfilles anglaises.
Marie referia-se s ilustraes que vira no Ladies Journal que ela havia comprado.
com aquele vestido e aquele penteado, Loretta parecia to tipicamente francesa, que at comeou a sentir-se diferente.
Mas Ingrid no havia terminado. Ela mesma aplicou um pouco de p na pele perfeita de Loretta, passou um pouco de pintura nos clios e um toque escuro nas plpebras, 
que tornaram seus olhos ainda maiores. Sobre as mas do rosto, um pouquinho de rouge, e um brilho nos lbios. Se o pai de Loretta a visse, mandaria que subisse 
imediatamente e fosse lavar o rosto.
Entretanto, no se podia negar que Ingrid havia sido bem habilidosa. Quem no conhecesse Loretta, se a visse sem pintura, no diria que era a mesma pessoa.
Finalmente, ela ergueu-se da penteadeira e, olhando-se em um espelho de corpo inteiro, pensou que o prprio Christopher teria dificuldade em reconhec-la.
Ao mesmo tempo, queria voltar a ser ela mesma o mais depressa possvel.
- Agora, Loretta, quero conversar a ss com voc.
Elas deixaram Marie e a criada exclamando como Loretta havia ficado linda e foram para a sala ntima de Ingrid, que ficava ao lado.
A sala era muito agradvel, ensolarada e primorosamente mobiliada; tudo ali parecia um ambiente perfeito para uma pessoa apaixonada.
Loretta sentou-se em uma poltrona de estofamento bordado em meio-ponto. Ela percebeu que a prima fizera questo de criar ao redor do marqus uma atmosfera romntica 
da qual ele no pudesse escapar.
"Eles so to felizes!", pensou, quase com inveja. "Como eu poderia me casar sem amor, sabendo que minha vida futura seria desolada, solitria e desastrosa? "
Deixando esses pensamentos, concentrou-se no que Ingrid lhe dizia.
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- Agora, querida, vamos recordar todos os passos. Voc  uma lady inglesa, casada com um lorde muito aborrecido e egosta. Sentindo-se infeliz, mas orgulhosa demais 
para admiti-lo, veio a Paris e me procurou, sabendo que eu seria a nica de suas amigas que compreenderia seu sofrimento.
Ingrid fez uma pausa; seus olhos brilhavam.
- Que tal? Tem lgica, no tem?
- S uma pessoa feita de pedra no se apiedaria de minha situao! - disse Loretta, rindo.
- timo! Vamos agora ao mais importante. Loretta prestava a mxima ateno.
- Tendo sofrido muito, tem averso por homens em geral. Suspeita de tudo o que lhe dizem, e no tem a menor inteno de se envolver, de modo algum, com qualquer 
homem que tente flertar com voc.
Loretta pareceu confusa, e Ingrid explicou:
- Compreenda, querida, que, mesmo parecendo leviana e frvola, voc tem que deixar bem claro que no quer envolver-se emocionalmente, como o faz a maioria das mulheres 
que vm a Paris especialmente para esse tipo de diverso.
- No! Claro que no!
-  por isso que deve parecer uma mulher orgulhosa, fria, desiludida da vida, com a firme inteno de no se ligar a homem nenhum que, como o seu marido, logo se 
cansaria de
voc.
- Compreendo, compreendo - disse Loretta, rindo. Voc acha que o marquis pode tentar flertar comigo, e eu devo deixar bem claro que ele no me interessa.
- Esse ponto  o mais importante - insistiu Ingrid. Quero que o conhea, que converse com ele, mas de forma alguma se deixe envolver. Tenho certeza de que, mesmo 
achando-a linda, ele no ficar interessado em voc se no lhe der
ateno.
Loretta bateu palmas.
- Ingrid, voc  um gnio! Entendi tudo, e vou deixar bem claro ao "Monsieur Casanova" que ele no me atrai como homem, e que sou apenas delicada com ele por ser 
sua hspede.
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-  exatamente o que deve fazer. Prometa-me, Loretta, prometa por tudo o que  sagrado que no vai se deixar seduzir por Fabian! Estou lhe avisando que ele  como 
o flautista de Merlin. toca uma msica e as mulheres o seguem!
- No se preocupe. Ficarei pensando o tempo todo que, se me casar com ele, como papai quer, vou ficar a vida inteira sozinha, sentada em algum chateou sombrio, na 
Frana, sem conhecer ningum, enquanto meu marido fica em Paris perseguindo lindas mulheres.
-  isso mesmo o que ele far. Portanto, no d ouvidos s coisas maravilhosas que ele lhe dir. No se deixe iludir pelos elogios, pois nisso ele  muito eloquente. 
Lembre-se nessa hora de que ele j repetiu a mesma frase centenas de vezes para mulheres loucamente enamoradas, que agora choram, desesperadas, porque ele no se 
interessa mais por elas.
- Fabian  abominvel! - disse Loretta, indignada. No se preocupe comigo, Ingrid. Uma pessoa prevenida vale por duas, diz o ditado. Acho que foi meu anjo da guarda 
que me inspirou a procur-la, depois que papai decidiu que eu no tinha outra escolha seno me casar com o marquis.
- Influenciado pelo duc, claro! S no se esquea de que o marquis est, no momento, enamorado da Mme. Julie St. Gervaise.
-  possvel que ele queira se casar com ela?
- Talvez fosse possvel, se Fabian no tivesse decidido nunca mais se casar novamente. Sei que ele lutar desesperadamente para no perder a liberdade.
- Espero que esteja certa, pois ser mais fcil para mim.
- Sim, claro. Mas no se fie muito nisso. Voc tem que representar seu papel com muito empenho. E lembre-se de que, Por estar nesta casa, ele no deve pensar que 
voc no seja.
Ela fez uma pausa e, pensando melhor, mudou o que ia dizer:
- to respeitvel como nossos... parentes.
Loretta no sabia muito bem o que ela queria dizer com aquilo, mas respondeu:
- vou fazer exatamente como tia Edith, quando no aprovava o que voc havia dito.
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Ingrid deu uma risada gostosa.
- Lembro-me de que ela sempre dizia a seu pai que eu i exercia pssima influncia sobre voc, e, claro, dizia a todos que eu teria um fim triste! Acho que ela ainda 
continua fazendo o mesmo JUZo de mim l no cu, ou onde possa estar, Loretta comeou a rir, achando muita graa no modo como
a prima falava.
Elas continuaram a recordar histrias de infncia, quando o marqus mandou avisar que Ingrid devia descer, porque seus convidados logo chegariam.
-  uma festa... muito grande? - perguntou Loretta, um
pouco nervosa.
- No, apenas meia dzia de cavalheiros.
- S homens? Ontem no vi senhoras na festa. Ingrid olhou para ela de um modo estranho.
- Voc no entendeu por qu? Loretta sacudiu a cabea.
- Ento deixe-me explicar. Para as mulheres que ns costumamos chamar de "senhoras", eu sou considerada "alm do limite social", uma mulher escandalosa que, quando 
encontram, as faz voltar a cabea e afastar-se, como se pudesse contamin-las.
Respirou fundo e continuou:
- Mas quero ver Hugh feliz, por isso sempre encorajei os homens mais inteligentes de Paris a frequentarem nossa casa, a virem a festas e almoos ntimos como este 
que vamos dar hoje. Hugh  um homem muito inteligente, e sempre gostou de reunies onde possa conversar com os amigos, em um alto
nvel intelectual. Ns formamos um crculo de amigos, todos muito cultos, e nos reunimos, com boa comida e bebida, passando assim momentos agradveis.
- Parece fascinante.
- Entre esses amigos temos tambm alguns artistas e msicos. Ocasionalmente, s ocasionalmente, temos mulheres entre os convidados. Elas so geralmente pessoas talentosas 
e de muita personalidade, que tambm no so aceitas pelas anfitris mais austeras. Por isso nossos convidados so quase sepre
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homens. Adoro receb-los. So cavalheiros muito interessantes, que ocupam altos cargos no governo ou que atuam em outros diferentes setores. Todos tm, na verdade, 
uma inteligncia brilhante.
- Acho tudo isso maravilhoso! Agora compreendo por que o marqus est sempre feliz ao seu lado, mesmo que tenha que esperar muito tempo para vocs se casarem.
- Rezo todas as noites para podermos realizar nosso casamento um dia. Amo Hugh, e morreria por ele. Por isso fao tudo para ele viver feliz e nunca se arrepender 
de ter escolhido viver ao meu lado.
- Nunca se arrepender - disse Loretta, beijando a prima. Depois de olhar-se rapidamente no espelho, Ingrid apressou-se em descer as escadas.
- Espere aqui exatamente dez minutos - ela disse. Depois desa e v ao salo prateado, que  onde nos reuniremos antes do almoo. Os criados do hall lhe diro onde 
fica.
Loretta sorriu.
- Est sugerindo que eu faa uma entrada triunfal?
- Isso mesmo! Quero que cause sensao e que todos os cavalheiros presentes fiquem perplexos com sua beleza.
- Agora est me deixando assustada.
- Apenas delicie-se com os elogios deles, mas lembre-se de que Fabian  perigoso!
A prima ia saindo, e Loretta disse:
- Obrigada, querida Ingrid! Espero no desapont-la.
- Pense naqueles dois velhos duques que planejam unir seus dois filhos sem se importarem se eles gostam ou no da ideia. Se fizer isso, no ser difcil representar 
seu papel com Perfeio.
Ela deu um sorriso e saiu, deixando a prima sozinha.
Loretta olhou-se no espelho que havia sobre a cornija da lareira. Por um momento, o que viu foi o medo refletido nos olhos. Depois admirou o penteado muito elaborado 
que a criada de Ingrid havia feito, e gostou do efeito sofisticado que ele Ousava.
O vestido parisiense que usava acentuava as curvas de seu busto e realava a cintura fina.
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Ento ela disse a si mesma com firmeza:
- Sou uma mulher inglesa, fria e altiva, e no confio nos homens, principalmente nos franceses!
Subitamente, com uma exclamao de horror, lembrou-se de que, embora ela e Ingrid tivessem conversado tanto tempo, no haviam decidido que nome ela usaria.
Pensava aflita no que poderia fazer, quando a porta se abriu. Um criado de libr entrou na sala, trazendo um bilhete numa
salva de prata.
Loretta pegou o bilhete, calculando que Ingrid tivesse descoberto a tempo essa omisso em seus planos. De fato, o bilhete era dirigido a "Lady Brompton", e dentro 
do envelope havia um papel onde se lia apenas: Lora.
O criado saiu da sala, e Loretta sorriu, ao ler o nome escolhido para ela.
" um nome interessante, bem ingls e bem comum. Quem o ouvir, principalmente um estrangeiro, no associar ao nome de uma pessoa importante."
- Sou lady Brompton - informou Loretta ao seu reflexo
no espelho.
Olhando para o relgio que estava  sua frente, viu que era
hora de descer.
Um criado de libr esperava por ela no hall, e foi  sua frente at o salo prateado, abrindo-lhe a porta.
Ao entrar, Loretta sentiu que tudo girava diante dela. Acalmou-se ao ver Ingrid, que parecia uma flor, rodeada de homens de roupas escuras. A prima levantou-se e 
caminhou vagarosamente sobre o tapete Aubusson, indo ao encontro dela.
- bom dia, querida! - exclamou Ingrid com alegria. Espero que tenha passado uma tima noite!
- Tive um sono muito tranquilo, mas receio estar atrasada.
- Est sendo pontual para o almoo. Isso  o que importa. Agora quero apresent-la aos meus convidados.
- Acho que lady Brompton deve primeiro tomar uma taa de champanhe para compensar o cansao da viagem - disse o marqus com um brilho nos olhos.
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Loretta percebeu que Ingrid devia ter treinado Hugh muito bem, pois ele agia com a maior naturalidade.
- Oh, achei sua casa encantadora! - disse Loretta, enquanto pegava a taa de champanhe das mos do marqus. - Eu me sentia muito cansada para observar tudo, mas 
vejo agora que tem uma linda coleo de verdadeiros tesouros, que eu adoraria admirar com mais calma.
- Prometo que poder ver todos eles - respondeu o marqus.
- Deixe-me apresentar-lhe l comte.
Como estava ainda um pouco nervosa, Loretta no ouviu bem os nomes dos cavalheiros que a prima lhe ia apresentando. Finalmente, ouviu:
- O marquis de Sauerdun! E deixe-me preveni-la para que no acredite em uma palavra do que ele disser!
- No esperava que fosse to m! - replicou ele com sua voz profunda.
Havia um toque divertido nas suas palavras, como se ele percebesse que Ingrid tinha segundas intenes.
Loretta olhou para o marquis, que, automaticamente, levou a mo dela aos lbios.
Ele no era, certamente, um homem de aparncia fora do comum, mas no podia negar que era msculo e muito bonito.
Havia, entretanto, em Fabian algo especial que o tornava diferente dos outros cavalheiros do salo. Agora Loretta podia entender exatamente o que Ingrid havia tentado 
explicar-lhe.
O marquis exibia um ar casual, mas nele havia tambm algo extraordinrio que o tornava extremamente dominador.
A impresso de Loretta era a. de que ele fosse um deus que tivesse descido para viver entre os homens e quisesse igualarse a eles.
O marquis olhou-a dentro dos olhos, e, ao apertar-lhe a mo, ela sentiu uma fora magntica que a atraa para ele. Loretta teve medo. Durante alguns segundos, ficou 
olhando para Fabian. Depois, com esforo quase sobre-humano, desviou o olhar. O marquis disse, com voz suave:
- Estou encantado, madame, e sinto, apesar de no saber explicar por qu, que este momento  muito importante em minha vida!
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Loretta susteve a respirao.
Tirando a mo da dele, conseguiu dizer, tentando parecer fria e distante:
- Para mim  um momento importante tambm, pois  a primeira vez que venho a Paris, e quero ter lembranas agradveis desta viagem.
Ao terminar de falar, sua vontade era afastar-se dali. Porm, como Ingrid deixara para apresentar-lhe o marquis por ltimo, os dois estavam um pouco isolados do 
grupo.
- A primeira vez que vem a Paris! - repetiu o marquis.
- Ento permita-me fazer desta sua estada aqui um perodo inesquecvel de sua vida.
Ambos conversavam em francs. A voz dele era to profunda e melodiosa, que parecia msica aos ouvidos de Loretta. Ela afastou seus olhos dos dele, e o marquis disse, 
em voz
baixa:
- A senhora  linda! Jamais pensei que pudesse existir
uma mulher to linda como a senhora!
Por um momento, Loretta ficou encantada com aquelas palavras; o tom de sua voz e o estranho magnetismo que ainda a atraa a cativavam.
com esforo, conseguiu responder:
- Imagino que tenha dito essas mesmas palavras para inmeras mulheres! Quantas teriam sido tolas a ponto de acreditar no que lhes disse?
O marquis deu uma risada sonora e espontnea.
- J devia ter adivinhado que Ingrid a colocou contra mim. Tudo o que posso dizer  que espero que seja bastante justa para acreditar que sou inocente at ficar 
provada a minha
culpa.
- J ouvi muito a seu respeito, monsieur, e posso estar enganada, mas h muitas provas, como as chama, e muitas testemunhas.
Loretta percebeu sua ousadia.
- Acredita mesmo nesses comentrios? Na maioria das vezes, eles so feitos por gente inferior, ou por aqueles que invejam os nossos prazeres.
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"Prazer"  uma palavra difcil de se definir. Para alguns pode significar riso e alegria, para outros pode significar uma diverso fugaz que deixa algumas pessoas 
feridas e infelizes!
- Sei exatamente a que se refere, lady Brompton. Sei tambm que tipo de histrias andaram lhe contando.
Ele ficou calado por um instante, e depois prosseguiu:
- Se me permite, quero sugerir que, sendo uma pessoa recm-chegada a Paris, deve divertir-se agora, enquanto est aqui. Lembre-se de que o passado no interessa.
Ele falava muito seriamente. Loretta olhou para ele, surpresa, tencionando dar uma resposta um tanto mordaz.
Lembrou-se ento de que Ingrid a havia instrudo para parecer fria, distante e, se possvel, demonstrar que se chocava com o que ele lhe dizia.
Ao olhar para o marquis novamente, ela sentiu-se incapaz de falar.
Alm disso, sem saber explicar por qu, ficou trmula ao notar a expresso do olhar dele.
O marquis disse em voz baixa:
- Apesar de no saber disso, est me desafiando, e sinto que no posso resistir a esse desafio.
- No entendo o que est dizendo - replicou Loretta.
- Acho que sabe - ele respondeu. - Pretendo mostrar-lhe Paris, e vou provar-lhe que faz um julgamento errado de mim. S desejo saber: quando me permitir que a acompanhe?
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CAPTULO IV
O marquis veio buscar Loretta s oito horas. Mesmo achando que estava sendo tola, enquanto o esperava para sarem para jantar, ela sentia-se extremamente excitada. 
Ao ouvir Loretta contar que o marquis a havia convidado para jantar, Ingrid exclamara:
- Notei que ele foi muito atencioso com voc durante o almoo. Acha que  prudente continuar com esta farsa? Afinal, j sabe como ele . Isso no basta?
Loretta percebeu que a prima estava bastante apreensiva. Agora que j vira o marquis, podia compreender a preocupao de Ingrid.
Por ser a nica senhora convidada para o almoo, Loretta sentara-se  direita do anfitrio e Fabian  esquerda, ficando ela bem em frente dele, do outro lado da 
mesa.
Observando-o, viu que uma das coisas que o tornavam diferente dos outros cavalheiros era que havia uma permanente expresso de riso em seus olhos. Era como se ele 
achasse o mundo um lugar muito divertido, e zombasse dele.
Controlando-se, Loretta voltou o olhar para o cavalheiro que
estava sentado ao lado de Fabian. Era o comte Eugne de Marais.
O comte, mais velho do que o marquis, aparentando ter
menos de quarenta anos, comeou a flertar com ela, o que
no a surpreendeu.
Em tudo que ele dizia havia insinuaes, e seus elogios eram to extravagantes, que Loretta, em vez de sentir-se inibida, divertiu-se.
A conversa durante o almoo foi muito interessante. Loretta ficou contente por conhecer todos os assuntos que os cavalheiros abordavam.
Ela devia isso ao pai, que, apesar de no ser um bom ouvinte, era um homem muito inteligente. Ele tinha o hbito de discutir durante as refeies todos os assuntos 
que havia lido nos jornais, pela manh.
Loretta estava, por isso, a par da situao poltica da Frana.
Sabia do escndalo que causara a queda do primeiro-ministro Rouvier e a renncia do presidente Jules Crvy, quando foi descoberto que o genro do presidente fazia 
comrcio com condecoraes, especialmente as to cobiadas da Lgion d'Honneur.
Loretta foi capaz de expor seus pontos de vista e de fazer alguns comentrios inteligentes, e notou que a prima olhava para ela com um ar de aprovao.
Para sua surpresa, o marquis lhe disse:
- Ser possvel que, alm de ser to linda, seja tambm inteligente? Chega a ser injusto para um homem competir com tal combinao!
Loretta riu, dizendo:
- Sou apenas uma humilde aluna sentada aos ps de grandes mestres.
- Tenho certeza de que todos os cavalheiros aqui presentes sentem-se envaidecidos ouvindo-a descrev-los assim - disse o marquis com ironia.
Mas Loretta continuou:
- Era assim que os gregos antigos conversavam; foram eles que ensinaram o mundo civilizado a pensar.
O marquis, que no tirava os olhos dela, exclamou:
- Ento  isso! Agora descobri o que me intrigou assim que a vi. Sabia que era especial. Acabo de me convencer de que  grega, mas no de Atenas, e sim do monte 
Olimpo.
Loretta quis rir e achou que o marquis dizia aquilo a todas as mulheres. As palavras pareciam fluir facilmente de seus lbios. Mas, ao mesmo tempo, parecia que ele 
estava sendo sincero. Naturalmente, ele era tambm um bom ator.
Lembrando-se do que Ingrid lhe dissera sobre o marquis, Loretta olhou para ele com frieza.
Sem responder ao comentrio que ele fizera, comeou a falar sobre o temor, que pairava no ar, de que uma revoluo estourasse.
- Acho que no acontecer nada to grave - disse o
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marqus. - A Frana est cada vez mais prspera e mais burguesa. J no se v tanta pobreza como no passado.
- No posso compreender - interrompeu Fabian - por que lady Brompton se preocupa com nossos problemas, a no ser que ela seja uma dessas ardentes reformadoras que 
gostam de interferir e querer resolver os problemas dos outros, em vez de cuidar dos seus.
Antes que Loretta tivesse tempo de dar uma resposta mordaz, o comte disse:
- Acho que lady Brompton pode interferir em todos os meus problemas, se quiser. S no quero que ela se esquea de mim. Ele falou como se achasse impossvel aquilo 
acontecer. Querendo demonstrar ao marquis que no tinha o menor interesse nele, Loretta disse ao comte com um doce sorriso:
- Posso assegurar-lhe, monsieur, que acho muito difcil esquecer algum to amvel e que me diz coisas to agradveis. Acabando de dizer isso, Loretta achou que 
havia exagerado. No podia se esquecer de representar o papel de uma mulher que no gostava dos homens. Ento, ficou muito ereta e permaneceu em silncio por algum 
tempo.
Na verdade, achou fascinante ficar apenas ouvindo os convidados apresentarem seus argumentos.
A mesa no era muito larga, o que facilitava aos convidados conversarem com os que estavam  sua frente e tambm com
seus vizinhos laterais.
Ela observava que, quando o assunto era poltico, os franceses gostavam de falar como se estivessem em um palanque, e queriam que todos os ouvissem atentamente.
A atmosfera ali era completamente diferente dos almoos e dos jantares formais que haviam no castelo do duque.
Mesmo contra a vontade, Loretta tornava-se to animada quando o assunto lhe era familiar, que acabava inflamando-se e tomando parte na discusso.
Quando saram da sala de jantar, o marquis veio para o
lado dela e disse:
- Prometeu-me que deixaria que eu lhe mostrasse Paris. Sugiro que comecemos vendo como esta cidade  linda  noite.
Loretta olhou para ele, surpresa, e ele continuou:
- vou lev-la para jantar em um lugar tipicamente francs. L experimentar a melhor comida de Paris. Depois iremos passear  beira do Sena.
Ele sorriu para ela.
-  um passeio que se deve fazer tambm durante o dia, mas vai concordar comigo em que no h nada mais bonito ou mais romntico do que o Sena  noite.
Por um momento Loretta hesitou. Ela estava pensando que certamente no devia sair para jantar sozinha com um homem.
Ento lembrou-se que era uma mulher casada, e na Frana era comum uma senhora ir jantar em um restaurante, o que no acontecia na Inglaterra. Alm disso j ficara 
claro que pouco ligava para as convenes, hospedando-se em casa de Ingrid.
- No aceito um "no" como resposta. Portanto, lady Brompton, no me faa ajoelhar-me aos seus ps para convenc-la a aceitar meu convite.
- No h necessidade de fazer algo to exagerado ou teatral - disse Loretta friamente. - Como no tenho outro compromisso, pois acabo de chegar a Paris, ficarei 
encantada em aceitar seu convite, monsieur.
- Obrigado! Pode ter certeza de que considero um privilgio ter a sua companhia.
Ele falou do mesmo modo calmo e em voz baixa. Seus olhos brilhavam e parecia que ele, na verdade, estava rindo dela. Nesse instante, Ingrid aproximou-se deles.
- Parece que ouvi voc convidar Lora para jantar esta noite, Fabian.
- Convidei-a, e ela aceitou.
- Ento suplico-lhe que no a aborrea.
- Por que acha que eu faria isso?
- Sabe muito bem sobre o que estou falando. Ela veio procurar-me porque precisa de meu auxlio e de meus conselhos. S posso dizer que voc no , de forma alguma, 
a pessoa certa, pelo menos no  a que eu escolheria, para ajud-la neste perodo difcil que ela est passando.
- No est sendo delicada comigo novamente - protestou o marquis. - O que fiz para estar to desacreditado?
- Sabe muito bem que Hugh e eu gostamos demais de
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voc, Fabian, e o aceitamos como . Mas acho que  meu dever proteger minha amiga de voc, simplesmente porque Lora sempre viveu muito sossegada na Inglaterra e 
nunca encontrou um homem como voc antes.
- Se lady Brompton tiver alguma queixa de mim, peo desculpas e estou disposto a reparar meu erro, mas no posso me arrepender de pecados que no cometi.
Ele inclinou-se e beijou a mo de Ingrid.
- Au revoir, e muito obrigado pelo delicioso almoo.
Em seguida, pegou a mo de Loretta, e novamente ela sentiu as mesmas vibraes que emanavam dele. Fabian olhou para ela e disse suavemente:
- At  noite. Prometo que no a desapontarei.
Ele saiu da sala, e Loretta admirou-lhe os ombros largos, os quadris estreitos, o fsico atltico e ao mesmo tempo a elegncia marcante.
Assim que o ltimo convidado saiu, Ingrid disse:
- Se vai mesmo jantar com Fabian esta noite, temos que nos apressar. Vai precisar de um vestido que a faa sentir confiana em si mesma.
- Acha mesmo que  disso que preciso?
- Tambm precisa ser mais dura com ele. Tem que resistir ao que ele diz e  sua magia pessoal. J lhe avisei que as mulheres so seduzidas por ele.
Loretta pensou no magnetismo que vinha do marquis, e viu que Ingrid tinha toda a razo.
Quem sabe ela se sentiria mesmo mais confiante usando um vestido novo. Ao mesmo tempo, esse encontro com o marquis iria permitir que ela o conhecesse melhor, e lhe 
proporcionaria argumentos para provar ao pai que era impossvel casar-se com aquele homem.
- H duas grandes casas de moda na Frana - disse Ingrid -, Worth e Laferrire. Acho que a Laferrire ser melhor, no seu caso.
Mais tarde, quando ambas voltaram da Rue de la Paix para os Champs-lyses, Loretta viu que a prima tinha toda a razo em ter escolhido a Laferrire. Ningum poderia 
deix-la com
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uma aparncia mais sofisticada, mais francesa e mais chique do que Laferrire.
Loretta havia pensado em comprar apenas um vestido de noite, mas Ingrid insistiu em que ela comprasse trs, e tambm diversos vestidos muito elegantes para o dia. 
Foi uma tarefa difcil escolher entre tantos modelos, cada um mais lindo do que o outro.
Enquanto admirava as roupas, fascinada, pois nunca vira nada to lindo antes, Loretta ia ouvindo tudo o que Ingrid lhe contava sobre o marquis.
- Suponho que em todas as pocas houve algumas mulheres a quem os homens no podiam resistir, no somente por causa de sua beleza, como tambm pelo seu carter e 
personalidade. O mesmo aconteceu com o sexo oposto. Quando nos referimos a Fabian como um "moderno Casanova" ou um "Dom Juan", estamos, de certo modo, fazendo-lhe 
um elogio; queremos dizer que ele possui algo que os outros homens no tm.
- Magnetismo! - disse Loretta mais para si mesma, mas Ingrid continuou:
- Ningum pode ser mais agradvel, mais inteligente, mais encantador como companhia do que Fabian. Mas, como marido, ele seria bem diferente.
Ela segurou a mo de Loretta e disse gentilmente:
- Meu nico medo, querida,  que, apesar de tudo o que lhe disse, voc se apaixone por Fabian e aceite casar-se com ele, como quer tio Arthur. Esse homem a far 
to infeliz, de um modo que voc nem pode imaginar.
- Compreendo. Mas a dificuldade est em achar algo substancial que pese contra ele e que sirva para persuadir papai de que no estou chocada apenas porque um homem 
tenha tido uma poro de casos amorosos antes de se casar.
- S mesmo os ingleses para acreditarem que um mulherengo possa mudar de vida - disse Ingrid com sarcasmo. Os franceses dizem: "Um leopardo jamais deixa de ter suas 
pintas". A mulher francesa j-espera que seu marido seja infiel, Portanto, se ele for mesmo, no a surpreende.
- Mas isso deve deix-la muito infeliz.
Acho que sim. Porm, os casamentos so em geral arranjados, e se realizam quando o homem e a mulher so ainda muito
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jovens. Elas no sabem o que  o amor, nem o que esto perdendo. S vo compreender melhor quando ficarem mais velhas.
Loretta, apesar de jovem, j sonhava com o amor ideal, que um homem como o marquis jamais lhe ofereceria.
Ingrid no o encontrara seno depois de seu casamento. Agora ela e o marqus faziam grandes sacrifcios para no perder esse amor.
" esse tipo de amor que desejo ter", repetia Loretta a si mesma desde que chegara a Paris.
Era impossvel ver Ingrid e o marqus juntos e ignorar como um vibrava pelo outro. No jantar, observara o modo como os olhos do marqus sempre buscavam os de Ingrid, 
sentada na outra extremidade da. mesa.
Loretta observara tambm que a expresso que havia no rosto de Hugh era bem diferente da expresso do comte de Marais ao flertar com ela. O comte havia dito a Loretta, 
em voz baixa:
- Preciso v-la novamente, madame. Tenho muitas coisas para lhe dizer, e precisamos ficar sozinhos.
Ele falava de um modo estranho, e Loretta sentia que ele tomava liberdades, o que a fez desejar afastar-se dele.
Na verdade, achava o comte um tanto repulsivo, e no gostava do tom acariciador que ele usara ao se dirigir a ela.
Loretta no respondeu ao seu pedido de ficar a ss com ele, apenas virou-se para o lado, como se no tivesse ouvido o que
ele dissera.
O comte deu uma risadinha, parecendo divertir-se com o esforo que ela fazia para evit-lo.
Agora, na carruagem, de volta das compras, ao passar pela Place de la Concorde, ela disse a Ingrid:
- Voc parece nervosa porque vou jantar esta noite com o marquis, mas isso  uma coisa que quero fazer e, na verdade, estou muito feliz por no ter que suportar 
a presena do comte.
- Tem razo, acho-o um homem desagradvel.  um mulherengo, e tem muito sucesso com a maioria das mulheres. Nem  preciso dizer que ele tem cimes de Fabian. Uma 
ocasio os dois se bateram em duelo.
- Um duelo! Mas isso j nem se usa mais!
- Na Inglaterra, no, mas na Frana, sim. H frequentes
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duelos em Paris. Geralmente os cavalheiros se batem em duelo no Bois, um local j tradicional para isso h mais de um sculo.
- No parece nada civilizado. Espero que ningum queira duelar por minha causa.
No deve permitir que isso acontea - disse Ingrid depressa. - Mas aviso-lhe que no jogue o comte contra Fabian, se no quiser que um desafie o outro para um duelo.
- Espero no ver o comte novamente.
Loretta disse isso cedo demais. Quando chegaram em casa, um criado informou a Ingrid que o comte Eugne de Marais esperava por elas no salo prateado.
- Veja o que voc fez! - exclamou Ingrid. - Se Eugne de Marais veio aqui duas vezes no mesmo dia, s pode ser para v-la.
- Diga a ele que vou subir para descansar - disse Loretta, e subiu depressa para seu quarto, sem esperar o assentimento da prima.
No conseguiu descansar muito, antes do jantar. Estava mais preocupada em enfeitar-se e ficar bonita em seu vestido novo.
Novamente Ingrid deu uns toques no rosto da prima para fazer desaparecer aquele ar de jeune-fille.
- Est linda, querida - disse Ingrid, ao terminar. - Linda demais. Prometa-me que ter cuidado!
- Mas que preocupao exagerada! Est parecendo uma galinha choca protegendo seus pintainhos! - disse Loretta, provocando a prima. - Prometo que serei cautelosa.
- Bata na madeira! - disse Ingrid depressa. - Lembre que  muito fcil colocar o canal da Mancha entre voc e Fabian.
- No posso me esquecer. Estou sempre me lembrando de que ele vai logo cruzar esse canal quando aceitar o convite de papai.
Quando um criado de libr anunciou que o marquis de Sauerdun havia chegado, Loretta desceu vagarosamente as escadas.
Ela estava consciente de que a pequena cauda de seu vestido flutuava atrs dela, dando uma sofisticao que uma jovem no tinha.
Seus cabelos tambm exibiam um novo penteado, completamente diferente do coque feio que era moda na Inglaterra. Estava, ao contrrio, todo arrumado em camadas de 
pequenos cachos ao redor da cabea.
Loretta achou que aquele penteado lhe dava um ar de deusa grega, como o marquis havia mencionado no almoo.
Ela no esperava que Fabian o notasse, mas, assim que ele se virou e olhou para ela, disse:
- Perfeito! Esta noite est mais do que provado que desceu do monte Olimpo, e sabe disso.
Ela apenas ergueu as sobrancelhas, como que pedindo uma explicao, e ele continuou:
- Agora no s o seu nariz  grego, mas os cabelos tambm. S posso dizer, e espero que acredite em mim, que jamais pensei que uma mulher pudesse reunir tanta beleza!
Havia sinceridade em sua voz, mas Loretta achou que devia ser parte de uma representao, perfeita, alis.
- Aonde iremos jantar? - ela perguntou para desviar o assunto, pois no queria falar sobre si mesma.
- No quero que amigos e conhecidos nos perturbem;  muito provvel que, se nos virem, fiquem curiosos e queiram saber quem . Por isso, vou lev-la ao Laprouse. 
 um pequeno restaurante perto do Sena; l nos sentiremos como se estivssemos sozinhos.
- Esta ser a primeira vez que janto em um restaurante - confessou Loretta.
- Imaginei mesmo que isso nunca tivesse acontecido antes. E h muitos outros lugares aonde quero lev-la, Lora. Terei tanto prazer em fazer isso que no me  possvel 
expressar em
palavras.
Ela no sabia o que dizer; depois de algum momento, replicou:
- Meu nome  lady Brompton!
- J nos conhecemos h tempo suficiente para deixarmos as formalidades de lado - disse Fabian. - Tenho certeza de que, como eu, voc pensou, quando nos encontramos 
hoje, que j nos conhecamos atravs do tempo e do espao.
Loretta voltou-se depressa para ele, depois desviou o olhar
e disse:
- Como pode dizer tais coisas?
Ela sabia, porm, que, embora pudesse parecer estranho, era
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exatamente o que sentia em relao a ele. Desde que o conhecera, estivera sempre vividamente cnscia de seu magnetismo.
Naquele momento ela pensava, embora soubesse que aquilo no podia ser verdade, que o rosto do marquis, que desde o incio a fascinara, era o rosto que combinava 
exatamente com o homem de seus sonhos, que at ento no conhecia.
Mas no! Devia estar louca. Tinha que afastar aquele pensamento e lembrar-se de tudo o que Ingrid lhe havia dito.
O restaurante aonde eles foram jantar ficava perto; era uma casa alta, e os dois subiram uma escada estreita, sendo levados a uma sala pequena, com trs mesas para 
duas pessoas, todas vazias.
Deram-lhes a melhor mesa, perto da janela, de onde podiam admirar o Sena, que brilhava sob as luzes de Paris.
Todavia, na cabea de Loretta havia sombras e dvidas.
Um garom entregou-lhe o cardpio, e, sem nem examin-lo, ela pediu ao marquis:
- Poderia escolher para mim? Sempre ouvi dizer que h pratos especiais em restaurantes franceses, mas no sei o que pedir.
- Sei exatamente do que gosta, mesmo sem me dizer nada. Loretta no pde deixar de achar estranho ele dizer aquilo.
Mas teve a desagradvel impresso de que era verdade.
"Ele deve fazer toda mulher com quem sai sentir-se assim", pensou.
Mas era-lhe impossvel ignorar a vitalidade daquele homem  sua frente, e tampouco deixar de ficar olhando para ele.
Demorou bastante tempo para que o marquis escolhesse o que ambos iam comer. Para comear, ele pediu que lhes servissem uma garrafa de champanhe. Depois de provar 
um pouco da bebida, Loretta constatou que jamais havia experimentado um champanhe de melhor qualidade do que aquele.
Ela forava-se a ficar olhando pela janela, pois, por mais que lutasse contra aquilo, uma grande timidez a dominava.
Para sua surpresa, em vez de ficar falando sobre sua beleza, Dizendo-lhe palavras lisonjeiras ou elogios, o marquis deu um rumo muito interessante  conversa.
- Suponho que j tenha percebido que a eletricidade deu
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a Paris ainda mais esplendor. Paris  conhecida como la Ville Lumire, a Cidade Luz, e  por isso que quero que conhea e a admire adornada pela "fada eletricidade".
- J estou fascinada por Paris! No imaginava que a Avenue ds Champs-lyses fosse to verde e to pitoresca. As grandes manses como a do marqus ficam abrigadas 
entre rvores.
- Embora Londres tenha uma atmosfera peculiar e tenha seus atrativos, no acredito que possa haver cidade mais linda do que Paris!
- Conhece Londres?
Ao fazer essa pergunta, Loretta lembrou-se de que o pai nunca mencionara que o marquis j estivera na capital inglesa. Ele sempre se referia  presena do duc nas 
corridas.
- Sim. Conheo Londres muito bem. Devo admitir que admiro as mulheres londrinas, que so as mais lindas do mundo!
Ele fez uma pequena pausa, depois disse:
-  estranho que jamais a tenha visto nos bailes a que fui.
- Eu... vivo muito tranquila... no campo.
- E isso a aborrece?
- No, adoro a vida do campo. Detestaria viver permanentemente em uma cidade grande, mesmo em se tratando de Paris. No campo, cavalgo bastante e me ocupo todos os 
minutos do dia.
- O que faz  noite?
Loretta olhou para ele de modo inquiridor e, percebendo o que ele quis dizer, ficou corada, desviou o olhar e ps-se a admirar o rio.
- Ficou chocada?
- No fiquei chocada. Apenas considero de mau gosto falar sobre um assunto to... ntimo - Loretta conseguiu responder.
Sua resposta soou um tanto rude, mas o marquis apenas riu.
- Acho-a to diferente, to fascinante! Jamais vi algum como voc antes. Estou to encantado com voc que no consigo encontrar palavras para express-lo.
Loretta empertigou-se, esperando estar parecida com a tia
Edith.
- Acho melhor falarmos sobre Paris, monsieur!
- Mas minha vontade  falar s sobre voc - contestou o marquis.
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- Seria mais interessante se falasse sobre si mesmo.
- E por que no? O que deseja saber? Loretta hesitou por um instante, depois disse:
- No acredito que no tivesse um compromisso com outra pessoa quando me convidou para jantar esta noite.
Parou, e ento, esperando surpreend-lo, continuou:
- Essa pessoa deve ter ficado magoada porque cancelou seu compromisso.
- Acho que o melhor modo de dizer  que mudei a direo de meus planos.  claro que eu no ia ficar em casa, sozinho, sentado, lendo os jornais! Mas nada era mais 
importante, Lora, do que estar com voc.
-  uma resposta plausvel, e, ao mesmo tempo, no condiz com sua reputao.
- Minha reputao?
- Sim, sua reputao de ser cruel com as mulheres que no mais lhe interessam.
O marquis torceu os lbios de um modo zombeteiro, que o fez parecer ainda mais fascinante, depois respondeu:
- Est novamente esquadrinhando o passado, quando eu lhe disse que pense apenas no presente e no futuro.
- Amanh eu serei parte do seu passado, e no tenho a menor inteno de lamentar o que fiz.
- Est sendo muito habilidosa ao apresentar seus argumentos. Mas saiba que voc ser sempre o meu presente e o meu futuro. Nosso passado no  o dia de ontem, mas 
talvez milhares de anos atrs, quando me disse hoje no almoo que nos encontramos em Atenas ou no monte Olimpo.
- Eu no disse isso!
- Mas era nisso que pensava - replicou Fabian -, e eu fazia exatamente o mesmo. Mas no vamos falar sobre esse assunto, pois isso aconteceu, definitivamente, e desde 
ento tenho estado  sua procura.
O modo como ele falou e a nota de sinceridade que havia em sua voz impediram que Loretta argumentasse. Ento ela disse depressa:
- Est quebrando sua promessa.
- Que promessa?
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- De que me mostraria Paris.
- Tenho toda a inteno de fazer isso, mas no h pressa. Temos esta noite e o resto de nossas vidas pela frente. Portanto, fica muito fcil conversarmos sobre ns.
- Para mim no  fcil. E, de qualquer modo, no compreendo o que est dizendo.
- No  verdade - contradisse o marquis. - Compreende perfeitamente, assim como a compreendo. No h necessidade de palavras. S o que temos a fazer  ficarmos aqui 
sentados, sentindo que estamos ligados por uma fora invisvel  qual nenhum de ns dois pode resistir.
Loretta susteve a respirao. Sentiu que, embora o marquis no se tivesse movido, a estava abraando, puxando-a para mais perto dele.
Tornavam-se, ento, to unidos que ela perdia sua identidade, tornando-se parte dele.
Por um momento ningum falou. Ela apenas ergueu os olhos, e havia tal apelo neles, que o marquis compreendeu.
- No vou assust-la - disse ele com uma voz cheia de ternura. - No tenho a menor inteno de faz-lo.
Sorriu para ela e continuou:
- Se isso a torna feliz, vou dizer-lhe o que pensa que deseja ouvir, mas na verdade isso no tem importncia. O importante  estarmos juntos.
Ento, com um charme irresistvel, comeou a falar sobre Paris. Falou no somente da nova Paris do baro de Houssmann, mas tambm das pessoas que ele conhecia e 
que gostaria de apresentar a Loretta.
Falou sobre a velha princesa de Metternich, que, depois de ter levado uma vida de prazeres, voltara-se para as artes. Ela era sobrinha de Napoleo I, e sua casa 
era aberta aos dndis, pintores e escritores.
- As reunies da princesa eram como as que sua amiga Ingrid promove, e acho que no futuro a manso dos Champslyses ser um dos mais importantes lugares para reunies 
de intelectuais e artistas de Paris.
- Acha mesmo? S desejo que Ingrid seja muito feliz.
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No havia necessidade de mais explicaes, e o marquis disse:
- Ela pode no ser aceita pelas famlias antigas, mais tradicionais, do ancien regime, que vivem apenas no passado. Mas Ingrid faz Hught Galston feliz por torn-lo 
parte do que  mais importante do que o mundo social: a nova aristocracia do intelecto e do poder, a que nenhum homem pode resistir.
- Fico muito contente em saber que pensa assim.  o que desejo para aqueles dois.
-  o que conquistaro.  o que ambos merecem, pois tm a coragem de admitir que se amam e que o amor que nutrem um pelo outro  muito mais valioso do que qualquer 
outra coisa no mundo.
- Acredita realmente nisso?
- Acredito.  o que desejo sinceramente para Hugh e Ingrid, do mesmo modo que voc. Como ambos pensamos da mesma forma, teremos que mostrar a mesma coragem que eles.
Ele falava de maneira to solene que Loretta, mesmo querendo evit-lo, vibrava ao ouvi-lo.
Foi um alvio quando o garom os interrompeu, trazendo o primeiro prato.
Ao sarem do restaurante depois de terminada a deliciosa refeio, a carruagem do marquis esperava por eles, com a capota arriada.
- Agora posso ver as luzes de Paris! - exclamou Loretta, cheia de contentamento.
Passearam s margens do Sena. Ela olhava as barcaas iluminadas e ocasionalmente os bateaux-mouches, vistosamente enfeitados com flmulas e fitas, certamente voltando 
de alguma excurso.
Loretta estava encantada. No podia haver nada mais lindo do que aquela cena.
As castanheiras que ladeavam a rua estavam em flor, perfumando o ar. Enquanto passeavam ao longo do rio, ouviam o som de msica ao longe.
Entretanto, Loretta tinha conscincia de que o marquis no tirava os olhos dela.
Ele nem ao menos tentou toc-la. Na verdade, sentaram-se
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o mais distante possvel um do outro. Novamente ela sentiu que havia entre eles uma grande intimidade.
O cocheiro certamente havia recebido instrues para seguir aquele itinerrio.
Eles passearam bastante, at Loretta perceber que estavam no Bois de Boulogne, passando por baixo das rvores frondosas. As estrelas que viam por entre as copas 
das rvores eram mais romnticas do que as luzes da cidade.
Depois de seguirem por outro caminho, a carruagem parou, e o marquis disse:
- Vamos descer. Quero mostrar-lhe algo. Loretta ficou nervosa.
- Talvez eu no deva - ela disse com voz dbil.
- No h nada a temer.  perto.
Era impossvel resistir e permanecer na carruagem.
Assim que Loretta desceu, viu que bem diante deles havia um caminho sob as rvores que ia at um lugar iluminado, no muito longe dali. Ela andou um pouco mais depressa 
do que era necessrio porque sentiu que caminhava para um lugar desconhecido.
Logo as luzes tornaram-se mais brilhantes, e ela viu que o marquis a havia levado at uma fonte luminosa. As luzes escondidas entre as pedras que havia na bacia 
da fonte refletiam-se na gua, que se projetava em direo  escurido do cu, para cair em cascata, transformando-se em milhares de arco-ris iridescentes.
A fonte era to linda que Loretta ficou parada, olhando para ela, de olhos brilhantes e lbios ligeiramente entreabertos.
Depois de um momento de silncio, o marquis disse:
- Olhe para mim, Lora, quero que olhe para mim. Loretta virou o rosto vagarosamente, sentindo que havia
sido transportada ao cu pela beleza da fonte e agora era trazida de volta  terra. Olhando para ele, mesmo no tendo sado do lugar, sentia-se prisioneira. Seus 
olhos no podiam deixar os dele.
- Trouxe-a para este lugar porque pretendia beij-la. Desejo faz-lo desde que a vi.
Loretta quis retrucar, mas ele continuou:
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- Mas agora decidi que no a tocarei, pois quero que pense em mim, como sei que j pensa, como um homem muito diferente dos que a cortejaram e, naturalmente, j 
fizeram amor com voc, no passado.
Os olhos de Loretta tornaram-se enormes, mas ela continuou calada, e o marquis prosseguiu:
- H uma aura ao seu redor, querida, que a protege, e s rezo para que a proteja no s de mim, mas de qualquer um que se aproxime de voc.
A voz dele tornou-se mais profunda.
- Quero que pense s em mim, por isso vou lev-la para casa. Sonhe comigo e sonharei com voc. No se esquea de que h algo maravilhoso que nos atrai um para o 
outro.
Loretta no pde evitar de pensar que j sonhava com ele h muito tempo.
O marquis pegou-lhe a mo, e Loretta sentiu seus lbios suaves e insistentes na maciez de sua pele. Ele continuou segurando-lhe a mo por algum tempo; depois, como 
se no pudesse evitar, virou-a e beijou-lhe a palma.
Loretta nunca havia pensado que um homem fizesse aquilo. Um estremecimento percorreu-lhe todo o ser.
Era como se a beleza da fonte corresse pelo seu corpo e houvesse um arco-ris dentro do seu peito.
O marquis ergueu a cabea e disse gentilmente:
- Agora eu a levarei para casa!
A carruagem partiu e logo chegaram  cidade, cheia de luzes nas ruas e nas casas.
O marquis ajudou Loretta a descer e levou-a at a porta Principal.
Antes que o criado de libr que trabalhava no perodo noturno viesse abrir a porta, ele disse carinhosamente:
- Bonne nuit, minha querida Lora! Amanh virei v-la. Mas, antes de dormir, lembre-se de que a amo!
Assim que a porta se abriu, ele foi embora, e Loretta entrou no hall. As palavras do marquis ainda ressoavam em seus ouvidos.
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CAPTULO V
Ao acordar, na manh seguinte, Loretta mal podia acreditar que o que acontecera na noite anterior no fora um sonho.
Como pudera ele falar com ela daquele modo? Como pudera, depois de lev-la at a fonte, traz-la para casa, comportando-se de maneira to diferente da de qualquer 
homem? Mesmo sendo inocente e sem experincia, ela sabia que nenhum homem agiria como o marquis.
- No compreendo Fabian - ela disse, baixinho. Loretta ansiava por ouvir os conselhos da prima, mas sabia
que seria impossvel que Ingrid ou qualquer outra pessoa pudesse entender as sensaes que o marquis despertava nela. Alm disso, era tmida demais para repetir 
a quem quer que fosse o que o marquis lhe dissera.
O caf da manh foi-lhe servido no quarto, e, como Marie lhe havia dito para descer s bem mais tarde, ela trocou-se com vagar.
No havia sinal de Ingrid.
Loretta foi at uma saleta de estar e sentou-se para ler os jornais que mencionavam todos os eventos importantes de Paris.
Mal dera uma olhada nas manchetes, um criado abriu a porta e anunciou:
- Monsieur l comte de Marais, madame!
Loretta olhou para os lados, desalentada. Esperava que o marquis viesse busc-la para um passeio pelo Bois. No esperava que o comte viesse v-la, e achou a insistncia 
dele extremamente cansativa.
Ele veio ao encontro de Loretta e, num gesto nada discreto, ergueu a mo dela at os lbios, beijando-a com uma expresso desagradvel nos olhos.
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- bom dia, monsieur - disse Loretta, friamente. - Minha anfitri no -me disse que esperava sua visita esta manh.
- Passei por aqui para v-la ontem  tardinha, e a senhora evitou-me - replicou o comte. - Portanto, hoje no quis correr riscos. Vim convid-la, minha bela senhora, 
para um passeio pelo Bois. Depois almoaremos no Pr Catalan!
-  muita bondade sua, mas j tenho um compromisso.
- No posso acreditar! ele disse, zangado. - E se esse compromisso  com Fabian de Sauerdun, no permitirei que saia com ele!
Loretta ficou tensa.
- No sei por que se arroga o direito de ter autoridade sobre mim!
- A  que se engana - respondeu o comte. - A autoridade que reivindico sobre a senhora baseia-se no fato de ser lindssima, adorvel e desejvel. No tenho inteno 
de deix-la cair nas mos daquele despedaador de coraes, um homem cujos casos amorosos so um escndalo, uma clamorosa vergonha.
Ele falava com tanto desprezo que Loretta teve vontade de defender o marquis, apesar de saber que no seria prudente. Ento, disse apenas:
- Monsieur, acho que toda esta conversa no tem razo de ser. Fico-lhe imensamente grata pelo convite, mas lamento no poder aceit-lo.
- J lhe disse que pretendo lev-la para almoar comigo. Alm disso, jantaremos juntos esta noite - replicou o comte.
- Asseguro-lhe que sempre consigo o que quero, em se tratando de mulheres.
Ele deu um passo, aproximando-se de Loretta, e continuou:
- Quando olho para a senhora, sei, mesmo sem precisar dizer-me, que nunca foi despertada para o fogo do amor, para a paixo que a tornar ainda mais linda do que 
j .
Aquelas palavras, o modo como foram ditas, a proximidade daquele homem, fizeram Loretta sentir repulsa, nusea e indignao.
Ela teria sado de perto do comte caso ele no lhe agarrasse o pulso.
- Est me deixando louco! - ele exclamou. - Quero ensinar-lhe delcias que at o momento nem sonha que existam.
Ele ia pux-la para junto de si, mas Loretta deu um pequeno grito de protesto e tentou livrar-se com certa violncia.
- Como ousa tocar-me? - ela disse, zangada.
O comte apenas riu. Naquele riso breve, ela soube que sua resistncia o havia excitado, e a expresso que viu nos olhos dele assustou-a.
- Deixe-me ir!
O comte puxou-a para mais perto dele, sem dar ouvidos aos protestos de Loretta. Ela ento deu um grito. Nesse instante a porta se abriu.
Foi com grande alvio que Loretta viu Fabian de Sauerdun e o marqus entrarem na sala.
Quando eles perceberam o que estava acontecendo, ficaram imobilizados por um momento, e, assim que o comte soltou o pulso de Loretta, esta disse, gaguejando, toda 
trmula:
- Eu estava. justamente dizendo ao comte. que ia almoar com o senhor monsieur l marquis.
- Claro - confirmou o marquis sem a menor hesitao. - J havamos combinado, e meu coche est esperando a fora. Antes vamos fazer um passeio pelo Bois.
Loretta respirou, aliviada, porque Fabian entendera tudo imediatamente.
O marquis foi at o comte e disse:
- bom dia, Marais! No me informaram de sua chegada.
- Vim para ver lady Brompton - replicou o comte. Havamos combinado ontem  noite que almoaramos juntos hoje.
Loretta estava assustada, mas conseguiu dizer, quase sem voz:
- Isso no  verdade!
- Parece que chegou atrasado. Meu convite foi feito primeiro - disse Fabian de Sauerdun - Isso est acontecendo com frequncia entre ns.
A provocao era deliberada, e o comte encarou-o, furioso.
- Um dia acerto as contas com voc, Sauerdun! Pode ter certeza disso!
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O marquis sorriu.
- Certamente no est sugerindo um novo duelo, est? O ltimo foi uma verdadeira pantomima da qual toda Paris ainda se lembra e d boas risadas!
O comte estava to furioso que Loretta teve medo de que ele agredisse o marquis.
Depois de uma exclamao, que foi na verdade uma praga sufocada, ele saiu da sala. Loretta sentou-se no sof, sentindo-se trmula e fraca.
- Marais est cada vez mais intolervel! - exclamou Fabian.
- Concordo com voc - disse o marquis - Ele  um homem extremamente desagradvel, por isso no deve encoraj-lo, Lora!
-  claro que no o encorajei! - protestou Loretta. - Ele  horrvel, repulsivo, e me assusta!
- vou certificar-me de que ele deixou mesmo esta casa disse o marquis, saindo da sala.
Fabian de Sauerdun sentou-se no sof ao lado de Loreta.
- Ele no a assustar novamente. vou proteg-la de Marais e de qualquer outro homem como ele!
O marquis viu o desalento no rosto de Loretta. Ento disse, com calma e com carinho, sem qualquer nota do seu costumeiro sarcasmo:
- Suba e ponha o seu chapu mais bonito. Quero que todos os meus amigos me vejam passeando com voc no Bois e invejem a minha sorte.
Loretta deu-lhe um sorriso trmulo e ergueu-se do sof.
Assim que chegou  porta, passou como um flash por sua mente que talvez o comte ainda no tivesse ido embora. Como se percebesse o que ela estava pensando, Fabian 
disse:
- vou lev-la at a escada.
Dizendo isso, ele ps a mo sob o brao dela, como na noite anterior.
Ela sentiu que ele a protegia. Um homem como o comte no podia, na verdade, feri-la, e era ridculo sentir medo dele.
"Sou mesmo uma ignorante no que diz respeito a homens e ao seu comportamento", ela-pensou.
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Erguendo a cabea, tentou andar com altivez, mas dentro do peito seu corao batia num ritmo mais acelerado.
Ao chegarem ao hall, viram ali apenas um dos criados.
- No se demore - disse Fabian, calmamente. - O dia est lindo, o sol brilha, e tenho muita coisa para lhe mostrar.
Mais uma vez ela sorriu para ele e disse:
- Obrigada por ter sido to bondoso!
Loretta subiu as escadas apressadamente. J em seu quarto, ps um lindo chapu com camlias brancas e folhas verdes, que Ingrid lhe havia dado. Enquanto se arrumava, 
pensava que seria impossvel no ficar tremendamente aborrecida tendo que suportar a impertinncia de um homem como o comte.
Ela nunca havia imaginado que um cavalheiro pudesse agir daquela forma, muito menos depois de t-lo conhecido h to pouco tempo.
Mas talvez ele pudesse ser desculpado, pois ela se havia exposto voluntariamente a uma situao vulnervel, fazendo-se passar por uma mulher casada.
Sua posio tornara-se ainda mais arriscada por estar hospedada em casa de Ingrid.
"Devo voltar para a Inglaterra".
Mas no era isso o que ela queria. Sua vontade era estar com o marquis, e, se quisesse ser honesta consigo mesma, devia admitir que no queria descobrir nada indigno 
nele, nem queria ter desculpa alguma para no se casar com ele. Queria, sim, ficar ao seu lado, por achar tudo nele fascinante e fora do comum.
"Bem que me avisaram! Fui mesmo muito bem avisada! "
Ao entrar na sala de estar onde Fabian conversava com o marqus, Loretta sentiu uma excitao irreprimvel percorrer-lhe todo o corpo.
Os dois homens levantaram-se, e o marqus disse:
- A que horas devo dizer a Ingrid que estaro de volta? Loretta olhou para Fabian, e ele disse:
- Trarei Lora de volta depois do almoo, s trs horas, mas virei busc-la novamente s oito, pois iremos jantar no Grand Verfour.
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Ele falava com tom decidido, e Loretta sabia que no adiantava contestar.
Loretta achou que o marqus fosse ficar surpreso, mas ele disse apenas:
- A comida l  insupervel, e  sem dvida o restaurante mais romntico de toda Paris.
- Tambm acho - disse Fabian, sem tirar os olhos de Loretta.
O coche partiu, puxado por cavalos esplndidos, cor de azeviche. Ao ver o lindo coche com os cavalos maravilhosos, Loreta pensou que no poderia haver ningum com 
uma carruagem mais elegante do que a do marquis, embora ela j tivesse ouvido o pai dizer que as carruagens, as damas e os cavalheiros que passeavam pelo Bois eram 
uma verdadeira ostentao e um belo desfile de modas.
Logo pde comprovar o que o pai dizia ao ver a elegncia das amazonas e dos dndis aristocrticos, todos eles exibindo cavalos espetaculares e carruagens luxuosssimas.
Loretta e Fabian no conversaram muito. Ao passarem pelo lugar onde os duelos eram travados, ele disse:
- Voc com certeza pode imaginar quantos amores secretos tm o Bois como cenrio.
Loretta concordou, e achou aquilo muito romntico.
Quando pararam no Pr Catalan, ela achou o lugar mais excitante do que imaginara.
O restaurante parecia uma casa de campo cercada de jardins e rvores, onde os clientes podiam sentar-se ao ar livre, sobre o gramado muito verde; cada mesa era coberta 
com um guardassol enorme, de um colorido vivo.
As mesas estavam arrumadas to discretamente, que nada do que fosse dito poderia ser ouvido pelos ocupantes da mesa vizinha.
Loretta olhou ao seu redor. Seus olhos brilhavam.
Logo lindas mulheres aproximaram-se do marquis, uma aps outra, exclamando, num tom reprovador:
- Fabian! No tem vindo me ver! Quando terei o prazer de sua companhia?
No havia dvidas de que elas estavam ansiosas para estar
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junto dele, e Loretta no pde deixar de admirar a vivacidade como ele respondeu, sem se obrigar a um compromisso futuro. Depois, quando pareceu que ele j havia 
falado com todas as amigas que almoavam ali, ele disse:
- Compreende agora por que ontem  noite quis lev-la a um lugar onde pudssemos conversar sem ser interrompidos? Pretendo fazer a mesma coisa esta noite.
Loretta no respondeu, e ele continuou:
- Ao mesmo tempo, devo dizer que a trouxe ao Pr Catalan, mesmo arriscando-me a encontrar tantos conhecidos, por achar que voc no podia deixar de conhecer, em 
sua primeira visita a Paris, um dos mais agradveis lugares desta cidade.
- Est sendo muito amvel.
- Como poderia deixar de ser?
Ele ficou olhando para ela atentamente, depois perguntou:
- Pensou em mim ontem  noite?
- Acha que seria possvel evit-lo?
Assim que acabou de dizer isso, ela criticou-se severamente, pois estava favorecendo intimidades com Fabian; devia usar de evasivas.
Mas, se tivesse feito isso, ele no acreditaria nela.
- Eu fiquei acordado - disse ele calmamente -, e agradeci a Deus por t-la encontrado, finalmente. Minha peregrinao, que tem sido longa, terminou.
Loretta tentou deliberadamente fazer-se de desentendida.
Felizmente nada teve que responder, porque o garom chegou trazendo o menu. O champanhe, que j havia sido pedido, foi servido.
A comida estava deliciosa. Durante todo o almoo, Loretta achou difcil pensar em outra coisa que no fosse o homem sentado  sua frente e no perceber que ele no 
tirava os olhos dela.
- Suponho - disse ele, terminado o almoo - que voc deve ter algum defeito, como todo mundo, mas at agora no consegui achar um sequer.
Loretta riu.
- Por favor, no procure demais. Tenho conscincia dos meus defeitos.
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- No posso imaginar quais sejam - considerou Fabian.
- Acho-a perfeita.  perfeita no modo de falar, de olhar, de pensar; no acredito que mesmo a pessoa mais crtica possa ter o que censurar em voc.
-  que voc no conhece os meus parentes! Criticam todo mundo, e no fazem exceo a mim.
Ela falou em tom de brincadeira, mas Fabian estava srio.
- Voc mencionou seus parentes, mas nunca fala sobre seu marido. Como  ele?
Aquela pergunta foi to inesperada que, embora ela tentasse no ficar perturbada, sentiu subitamente dificuldade em se expressar, e um rubor cobriu-lhe o rosto.
- Ele deve ser um homem bem estranho para permitir que uma mulher linda como voc venha a Paris sozinha. Alm disso, permitiu que se hospedasse com Ingrid, que se 
encontra numa posio embaraosa, e ainda deixou que se expusesse a encontrar homens como eu, que no seria humano se no lhe falasse de amor.
- No posso. falar sobre esse assunto - Loretta conseguiu dizer.
- Por qu? No me diga que  porque o ama. Sei muito bem, minha querida Lora, que voc pouco entende ou nada entende de amor ou de homens.
- No compreendo como pode. ter tanta certeza de que eu seja... to ignorante - replicou Loretta, sentindo que precisava defender-se.
Fabian deu um breve sorriso.
- Voc  to jovem e sem malcia! Eu at j me havia esquecido de que podiam existir mulheres como voc no mundo. Parece inacreditvel que seja casada!
- Sim, sou casada - disse Loretta com firmeza. - Como j lhe pedi antes, monsieur, no deve falar comigo desse jeito.
- Como posso evitar? Da mesma forma, voc no pode evitar sentir o que sei que sente por mim.
Loretta quis dizer que no sentia nada por ele, a no ser que o achava um estranho interessante. Mas, ao olhar para Fabian, seus olhos ficaram presos aos dele, e 
foi-lhe impossvel desviar o olhar.
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- Minha querida, voc  to transparente! - ele disse com voz calma. - Sei tudo a seu respeito, e sei tambm que sente alguma coisa por mim. Mesmo que no queira 
admitir, sei que seu corao est batendo mais aceleradamente porque estamos juntos, e seus lbios, que ainda no beijei, esperam ansiosos pelos meus.
O que ele disse pareceu deixar Loretta hipnotizada, imvel. Ento, com esforo, ela conseguiu dizer:
- Acho que j  hora de. irmos para casa.
Vou lev-la neste instante, mas  noite continuaremos
este assunto.
Loretta quis dizer que no iria ouvi-lo, mas sabia que isso no era verdade.
Ela queria que ele continuasse a falar com aquela voz estranhamente perturbadora, que parecia fazer com que raiozinhos de sol percorressem todo o seu corpo.
Tentava no acreditar no que Fabian dizia, mas estremecia de emoo e notava que ele era sincero.
"Ele  como o flautista de Hamelin! Ingrid tinha razo", ela pensou. "Como todas as outras mulheres tolas, estou correndo atrs dele para a destruio! "
Ela caminhava  frente de Fabian. Atravessaram o gramado e chegaram ao coche, que esperava  sombra de algumas rvores.
O simples toque de Fabian ao ajud-la a subir no coche fez a jovem sentir uma estranha emoo, e ela decidiu que o melhor a fazer era deixar Paris o quanto antes.
"Estou sendo mesmo uma tola", pensou, respondendo a si prpria.
O marquis se acomodou ao seu lado e tomou as rdeas para dirigir o coche. Loretta comparou-o a Apolo dirigindo os seus cavalos, cortando os cus. Nenhum homem poderia 
ser mais incrivelmente atraente do que ele; mas precisava fugir dele, pois sofreria ao seu lado, como j lhe haviam prevenido.
Fabian deu uma volta enorme pelo Bois, o que era desnecessrio. Ele queria que Loretta admirasse a beleza das rvores, as flores, os rapazes num campo, jogando futebol.
Alguns minutos mais tarde eles estavam de volta s avenidas
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ladeadas de rvores. Havia pessoas andando vagarosamente pelas caladas ou sentadas do lado de fora dos cafs, tomando a inevitvel xcara de caf.
Fabian levou Loretta de volta  casa do marqus.
Assim que o cavalario correu para segurar os cavalos, Fabian desceu do coche para ajudar Loretta a descer, dizendo depois:
- Au revolr, minha linda deusa, at a noite.
Loretta ficou parada junto ao primeiro degrau da casa da prima e conseguiu dizer, com esforo:
- Se sairmos, no deve falar comigo dessa forma.
- Por que no?
- Porque no est certo. - ela comeou.
- No vejo nada errado! - disse Fabian suavemente. Digo o que sinto por voc, e sei que sente o mesmo por mim. Podemos falar sobre o amor que enche nossos coraes 
at que as estrelas percam sua luz e desapaream do cu. S no podemos mudar nossos coraes. Negar tal amor  uma blasfmia.
Novamente ele dizia aquelas palavras com a maior seriedade. Tomou a mo de Loretta, e ela sentiu o mesmo magnetismo atraindo-a, prendendo-a.
Um medo sbito de que no pudesse escapar quela atrao a invadiu.
Sem responder, subiu os degraus e ouviu:
- At as oito.
Fabian voltou depressa ao coche e partiu. Ingrid esperava por Loretta no hall. Depois de beijar a prima, exclamou:
- Fiquei muito surpresa, querida, quando Hugh me disse que havia sado para almoar com Fabian, e mais surpresa ainda quando soube do pssimo comportamento do comte.
- Ele  um homem horrvel! - exclamou Loretta.
- Concordo com voc. Ao mesmo tempo,  um homem muito importante no mundo das finanas. Por isso, quero que Hugh seja amvel com os "reis das finanas", da mesma 
forma que desejo que ele seja persona grata com os polticos que governam nossas vidas.
- Compreendo - replicou Loretta em voz baixa -, mas,
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quanto a mim, acho muito difcil ser delicada com o comte, quando ele se comporta de forma to estranha.
- Ele acredita que todas as mulheres se apaixonam por ele, e no pelo seu dinheiro.
- Por que ele odeia o marquis? Ingrid riu.
-  preciso perguntar?  porque os dois muitas vezes se encontram perseguindo a mesma beldade, e invariavelmente Fabian sai vencedor.
- No quero ver o comte novamente! - disse Loretta com firmeza.
- Farei o que puder - prometeu Ingrid. - Mas no vai ser fcil.
Loretta tirou o chapu e disse:
- Estou lhe causando muitos aborrecimentos, no? Gostaria que eu voltasse para a Inglaterra?
- No, claro que no. Adoro ter voc conosco. Nem posso dizer o quanto significou para mim ter-me procurado para ajud-la a resolver seu problema.
Sua voz tornou-se mais profunda ao dizer:
- S espero poder ajud-la. Se eu falhar, no foi por no ter tentado.
- J me ajudou bastante.
Assim que acabou de falar, Loretta atravessou a sala e foi at a janela.
- Gostaria de ter certeza disso - disse Ingrid, que estava logo atrs dela. - Mas tenho o pressentimento, embora possa estar errada, de que voc est achando Fabian 
muito mais encantador do que pensava.
Era a pura verdade, e Loretta fez que sim com a cabea. Ingrid disse ainda:
- O estranho  que, apesar de sua reputao, apesar de seu sucesso com as mulheres, a maioria dos homens gosta de Fabian e confia nele. O comte  exceo, naturalmente. 
Na verdade, Hugh  muito devotado a Fabian.
Loretta sabia o que significava o fato de Ingrid falar daquela forma a respeito do marquis. Na realidade, a prima o considerava indesejvel apenas como marido. Sentia-se 
cada vez
mais confusa.
Para mudar de assunto, perguntou: Temos alguma coisa para fazer esta tarde?
- Mais compras, se quiser.  claro que h muita coisa interessante para ver em Paris, mas vou deixar isso a cargo de Fabian.
- Quando ele me trouxe de volta do almoo, esperei que me convidasse para dar um passeio, a fim de me fazer conhecer Paris.
- Parece que ele tinha um jogo de plo marcado para hoje, e no quis perder a partida.
- Plo?
- Pensei que voc soubesse que o motivo de Fabian no se interessar por corridas de cavalos, como o pai,  porque ele  um famoso jogador de plo. Na verdade, ele 
joga no time mais importante, o que representa Paris.
- No tinha a menor ideia. Notei, sim, que seus cavalos so magnficos, mas pensei que, como ele nunca comparece s corridas de cavalos na Inglaterra, no estivesse 
interessado em puros-sangues, a no ser como meio de transporte.
Ingrid riu.
- Se dissesse isso a Fabian, ele teria um ataque! Seus puros-sangues so ainda melhores que os do duc. Seu estbulo, na Normandia,  considerado o melhor de todo 
o pas. Ele tambm tem cavalos de corrida, mas no  obcecado por eles, como o pai.
- Agora compreendo por que papai no conhece o marquis. Isso me intrigava.
- H muitas coisas sobre Fabian que a intrigaro ainda mais.  uma pena que ele no sirva para marido, pois sob todos os outros aspectos ele  um homem fantstico.
Depois elas falaram sobre outros assuntos, mas o pensamento de Loretta sempre se voltava para o marquis,
No adiantava fingir. Enquanto subia para trocar-se para o jantar, Loretta sonhava estar sempre ao lado do marquis, conversando com ele.
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Toda vez, porm, que Fabian falava sobre os sentimentos de ambos, ela ficava inibida. Mas no podia negar que Fabian despertara nela sensaes que nem ousava admitir, 
e evitava pensar nelas.
"Se j me sinto to atrada por ele agora, o que no sentiria se nos casssemos e depois ele me abandonasse por outra mulher? "
Esse pensamento era to angustiante, que ela tentou parecer fria e distante enquanto se banhava na gua perfumada com lils.
Depois do banho, ps um dos outros vestidos maravilhosos que havia comprado com Ingrid na Lafarrire.
Nesse vestido ela parecia uma rosa. Havia toques de veludo entre o tecido de chiffon, e tambm um toque prateado, o que tornava o vestido sofisticadssimo.
Naturalmente, no seria o vestido escolhido para uma debutante.
Loretta no tinha as jias que uma mulher casada costumava ter, por isso Ingrid emprestou-lhe um pequeno colar de diamantes do qual pendia uma prola grande e perfeita, 
em formato de pra.
Havia brincos e uma pulseira combinando com o colar. Loretta ps a pulseira sobre as luvas longas, da mesma cor do vestido.
Est absolutamente fascinante! - exclamou Ingrid quando a viu.
Loretta havia ido at a sala ntima da prima para dizer-lhe boa-noite. Como a prima s iria jantar com o marqus muito mais tarde, estava descansando em uma chaise 
longue, usando um extico nglig de gaze verde.
- Divirta-se bastante, querida - disse Ingrid -, mas lembre-se de que no pode perder nem a cabea nem o corao, pois, no que diz respeito a Fabian, o mal ser 
irreparvel.
- No me esquecerei disso - disse Loretta sem muita convico.
Ao fechar a porta atrs de si, no notou a expresso de preocupao que havia no rosto da prima.
Levando uma estola de veludo no brao, Loretta foi descendo as escadas lentamente. Assim que chegou ao hall, um criado de libr veio ao seu encontro para dizer:
- Um cavalheiro a espera, madame, e pede-lhe que no se demore, pois os cavalos esto um pouco inquietos.
Loretta no parou para pensar que aquilo era estranho. Os cavalos de Fabian, que j conhecia, eram perfeitamente treinados.
Ela desceu depressa os degraus da frente, e um criado, que j a esperava, abriu a porta de uma carruagem fechada.
Loretta no deixou de achar estranho que Fabian a esperasse dentro da carruagem. Assim que entrou, viu que a carruagem estava vazia.
Mal teve tempo de recobrar-se da surpresa, a porta j se fechava e os cavalos partiam.
Loretta teve que sentar-se depressa para no cair.
A carruagem subiu a Avenue ds Champs-lyses a toda velocidade, e ento a jovem se deu conta de que devia tratar-se de um engano.
Queria atrair a ateno do cocheiro e do criado da boleia, mas as janelas estavam bem fechadas.
Tentou imaginar se aquilo podia ser uma das surpresas do marquis para deix-la intrigada.
S ento uma suspeita assustadora passou-lhe pela cabea. Ela inclinou-se para a frente e tentou abrir as janelas, mas em vo: estavam bem fechadas. Por causa da 
velocidade, ela no ousou abrir a porta da carruagem.
"O que est acontecendo? O que pode estar acontecendo? "
Ento ela imaginou, em seu desespero, o que poderia fazer se suas piores suspeitas se confirmassem. J estavam chegando ao fim da avenida.
As casas iam tornando-se mais distantes umas das outras, e, embora no tivesse certeza, ela achou que estavam prximos do Bois.
A carruagem passou por um porto e continuou seguindo Por um caminho ladeado por jardins floridos, at pararem, finalmente, em frente ao prtico de uma casa enorme.
"No resta dvida de que  mesmo um engano", pensou Loretta, querendo consolar-se. "O cocheiro deve ter ido  casa errada e apanhou a pessoa errada. A culpa foi 
minha por no achar estranho que o marquis no tivesse entrado para apanhar-me."
Um criado abriu a porta da carruagem e Loretta perguntoulhe em francs:
- De quem  esta casa?
- Monsieur a espera l dentro, madame - respondeu o criado.
- E qual  o nome de monsieur? - insistiu Loretta.
- Ele a espera, madame, e pede-lhe que v encontr-lo. No lhe restava nada a fazer, pois de nada adiantava ficar
ali discutindo. Loretta saiu da carruagem e disse ao criado:
- Por favor, pea ao cocheiro que espere. Deve haver algum engano. Preciso explicar ao seu amo que devo voltar para o lugar de onde vim.
Ela entrou no hall, onde um outro criado a acompanhou. Subiram ambos uma larga escada que conduzia a um salo no primeiro andar.
A casa era muito bem mobiliada e parecia luxuosa. Loretta teve certeza de que tudo aquilo era um autntico engano.
"Tenho que insistir que me levem para casa bem depressa, caso contrrio o marquis vai chegar, e ficar sem saber o que aconteceu comigo."
Um relgio no alto da escada marcava oito horas. Mais uma vez ela disse a si mesma que havia sido mesmo uma idiota em pensar que fora o marquis quem viera busc-la.
Na noite anterior ele havia chegado na hora exata. Ela devia ter feito o trajeto em pelo menos dez minutos, desde que sara da Avenue ds Champs-lyses.
Um criado abriu a porta e permaneceu calado, enquanto Loretta entrava numa grande sala. Mal deu alguns passos, ficou paralisada.
De p, esperando por ela, havia apenas um homem: o conte Eugne de Marais.
Sua aparncia era um tanto estranha.
Demorou alguns segundos para Loretta perceber que ele no
usava um traje de noite, mas um casaco pesado, de brocado, com enchimentos.
Aquele casaco era parecido com um que seu pai usava depois de uma caada, mas muito mais sofisticado.
Ela olhou para o comte de olhos arregalados, imaginando o que poderia dizer e como-expressaria o pavor que estava sentindo por ter sido trazida ali daquela maneira 
to extraordinria.
Ento compreendeu que no estava em uma sala, mas num quarto.
Encostada a uma das paredes, havia uma cama grande, parecida com um div, mas com um cortinado. O comte estava de p em frente a um grande espelho que refletia suas 
costas e
a cama.
Abajures de luz suave emprestavam ao quarto um ar de seduo.
Loretta conseguiu articular algumas palavras.
- Como ousa. trazer-me aqui desse jeito?
A porta fechou-se atrs dela, e o comte deu alguns passos, aproximando-se, para dizer:
- O importante  que voc veio! Como ansiei por este momento, minha bela! Agora no se recusar a jantar comigo, como era meu desejo.
- Disse-lhe esta manh, monsieur, que tinha outro compromisso. Estou horrorizada diante de seu comportamento to. singular.
Ele quase tocou Loretta, e ela, assustada, afastou-se, encostou-se na porta e tentou virar a maaneta.
Ao fazer isso, notou que a porta estava trancada  chave.
Ela olhou novamente para o comte e viu um riso divertido nos seus olhos.
- No tem jeito de escapar, minha adorada! Voc quer fugir de mim, mas isso me excita. Fiquei louco por voc desde que a vi pela primeira vez no almoo na casa do 
marqus. Se continuar a lutar contra mim, pode ter certeza de que vou achar isso tremendamente fascinante e tentador.
Trazendo-me aqui, enganada, o que espera que eu faa, a no ser lutar contra o senhor?
- Eu a desejo! - disse o conte numa voz profunda, que Loretta achou assustadora.
Percebendo que devia mudar de ttica, ela pediu:
- Por favor. seja corts. Sabe que eu no tinha vontade de vir at aqui... S lhe posso pedir que, como cavalheiro, deixe-me ir embora.
- Como voc ficaria desapontada se eu fizesse isso! Entretanto, como disse, vou ser corts. A primeira coisa que sugiro  que tomemos uma taa de champanhe. No 
h pressa. Temos a noite toda pela frente.
O modo como ele falou fez Loretta ter vontade de gritar de horror.
Mas, com orgulho e um autocontrole que ela mesma desconhecia, conseguiu dizer:
- Aceito uma taa de champanhe. Porm, creio que pode imaginar que me sinto profundamente perturbada, por ter sido raptada desta forma to incomum.
- J lhe disse que tenho meus prprios mtodos para conseguir o que desejo. Agora, sente-se aqui. Quero olhar para voc e dizer-lhe que jamais vi uma mulher to 
linda nem to desejvel.
Ele fez um gesto que indicava a Loretta que o seguisse. Caminhou para um sof que ficava em frente s pesadas cortinas de uma das portas que dava para a sacada. 
Diante do sof havia uma mesa. Sobre a mesa havia uma garrafa de champanhe dentro de um grande balde de ouro com gelo, sobre uma bandeja tambm de ouro. Havia outras 
garrafas com diferentes tipos de bebidas e alguns copos.
Loretta sentou-se, tentando manter o controle. Tinha vontade de correr at a porta, dar murros e gritar para que a tirassem dali.
Mas sabia que, se fizesse isso, os criados do comte no lhe prestariam ateno.
Era horrvel saber que um dos criados recebera ordens do comte para trancar a porta.
O comte sentou-se ao lado dela, e Loretta pde ver que sob o casaco ele usava a cala de seu traje de noite e uma camisa fina de cambraia. Em vez do colarinho convencional, 
engomado, ele usava um leno de cetim ao redor do pescoo, e ela logo imaginou que seria muito mais fcil tir-lo.
Ante esse simples pensamento, ela sentiu que desfalecia e tentou no olhar para a cama que ficava bem  frente deles, j havendo notado os lenis de cetim arrematados 
com renda e os fofos travesseiros com fronhas tambm de cetim, com o monograma do comte.
Ele despejou champanhe nas duas taas, dizendo:
- Tome este vinho dourado, que combina com o ouro de seus cabelos. Sugiro que coma um desses canaps. O pat me  mandado de Strasburgo, mas, se preferir, tambm 
h caviar.
com medo de desmaiar, Loretta tomou um gole de champanhe, o comte disse:
- Mais tarde vamos jantar na sala ao lado, mas primeiro, minha bela, quero ensinar-lhe, como nenhum ingls  capaz de fazer, os segredos do amor, conhecidos dos 
antigos egpcios e dos hindus, muitos dos quais foram amantes famosos.
O modo como ele falou fez Loretta notar que o comte pronunciava cada palavra com prazer, como se aquilo o excitasse. Ele lhe lanava olhares cobiosos, como se a 
estivesse despindo mentalmente.
Sem poder suportar mais aquela presena, Loretta encolheu-se e afastou-se o mais que pde.
O comte deu um riso breve e disse:
- Daqui a um pouquinho voc ser minha. Ento, minha adorvel inglesa ainda no desperta para o amor, vai tornar-se mais madura, mais mulher e, mesmo que possa parecer 
impossvel, muito mais desejvel do que j  no momento.
Antes que Loretta pudesse mover-se, ele ps o brao ao redor dela e tirou-lhe a taa da, mo, puxando-a para mais junto dele.
Ela tentou resistir, mas constatou que ele era forte demais.
- No, no! - ela gritou.
com um movimento mais brusco, o comte fez com que seus corpos ficassem colados um ao outro.
"Fabian, ajude-me. ajude-me", ela pediu mentalmente.
Nesse instante, como se a resposta viesse do fundo de seu corao, ela soube o que fazer.
Ergueu a mo como se fosse protestar e esbarrou no brinco, que caiu no cho. Era o brinco de Ingrid, e estava apenas preso  orelha sob presso. Loretta deu um grito 
de consternao:
- Meu brinco! No pise nele!  muito delicado!
O comte olhou para o cho e viu que o brinco estava debaixo de uma mesinha. Assim que se abaixou para peg-lo, Loretta inclinou-se, agarrou uma garrafa fechada de 
gua mineral que estava na bandeja e, com toda a sua fora, golpeou a cabea do comte.
Ele caiu para a frente com um gemido e ela deu-lhe outro golpe.
Ento, ficando de p para ter mais fora, atingiu o comte pela terceira vez.
Ele caiu no cho, entre a mesa e o sof. Nesse exato momento, Loretta ouviu um barulho atrs de si. Virando-se, viu as cortinas se abrirem e Fabian entrar no quarto.
Ela deu um grito de alvio que pareceu ecoar pelas quatro paredes do quarto suntuoso.
Atirando a garrafa sobre o sof, correu e atirou-se nos braos de Fabian, dizendo:
- Eu o matei! Eu o matei! Oh, Fabian. eu o matei!
CAPITULO VI
Fabian abraou Loretta e manteve-a juntinho dele durante algum tempo.
Ento, erguendo o rosto, ela murmurou, numa voz que mal podia ser ouvida:
- Eu o matei! Agora, vou para a priso ou para a guilhotina.
Todo o seu corpo tremia ante esse pensamento, e Fabian disse, com voz calma e suave:
- Est tudo bem, querida, deixe tudo por minha conta. Ao dizer isso, puxou-a para trs das cortinas e levou-a para
a sacada.
Loretta ainda estava agarrada a ele, desesperada, e o marquis deixou-a encostada na mureta de pedra, dizendo:
- Fique aqui e respire fundo. vou ver o que aconteceu exatamente com o comte.
- Ele est morto!
Quase como uma criana, ela obedeceu a Fabian, ficando junto  mureta, sentindo o contato com a pedra fria. Ele desapareceu, voltando ao quarto.
Loretta fechou os olhos, imaginando que o que acontecera no podia ser verdade; talvez fosse um terrvel pesadelo.
Seu corao pulsava forte no peito, seus lbios estavam secos. O terror no a abandonara, pois a todo instante recordava o que o comte estivera prestes a fazer. 
Salvara-se por milagre.
Ela ficou na sacada durante um tempo que lhe pareceu longo demais; sentiu que iria desmaiar a qualquer momento.
Outro temor que a assaltava era que Fabian a desprezasse depois do que havia acontecido.
"Devo controlar-me e ser corajosa", ela pensava, tentando se convencer disso.
Mas sentia-se fraca e tinha nuseas.
Quando estava decidida a entrar, pois no suportava mais aquela angstia, Fabian voltou.
Assim que ouviu os passos dele aproximando-se, ela se virou, atirando-se em seus braos novamente.
Ele a abraou forte, e o aconchego de seu peito deu-lhe um grande conforto.
- Est tudo bem, meu amor - ele disse. - O comte no est morto.
- No est morto?
- Sim, est vivo, mas voc foi mesmo impiedosa com ele. O comte vai ficar um bom tempo sofrendo as consequncias das pancadas! Mas, decididamente, mereceu-as!
A voz de Fabian soou rspida, mas tudo o que Loretta podia pensar era que estava salva. No seria presa nem guilhotinada uma vez que o comte no estava morto, como 
ela havia imaginado.
Fabian abraou-a, e Loretta sentiu os lbios dele nos seus cabelos.
- Agora peo-lhe para ter coragem, pois vamos ter que descer e sair pela porta da frente. No vai poder sair da forma que entrei, subindo pela escada. Minha carruagem 
estar esperando na frente da casa.
- Mas no podemos sair. A porta est trancada!
- Sei disso, mas h a porta da sala ao lado, onde vocs iam jantar.
Loretta olhava para o marquis, plida e assustada. Tinha os lbios trmulos, e nos seus olhos estava impressa a sombra do medo. Ento Fabian lhe disse, como se falasse 
com uma criana:
- Tenha coragem por mais algum tempo. No podemos alarmar os criados.
Ela ficou muito ereta e ergueu o queixo. com uma expresso terna no olhar, Fabian fitou-a por um longo momento.
Depois ele ps a mo no ombro dela e foi conduzindo-a de volta para o quarto.
Ele separou as cortinas e Loretta nem ousou olhar para o lugar onde deixara o comte cado.
Mas o comte j estava deitado na cama, reclinado contra os
travesseiros de cetim, de olhos fechados. Fabian com certeza o havia carregado para l.
O casaco e a camisa do comte estavam abertos, como se Fabian tivesse ouvido as batidas do seu corao.
Quando ela ia perguntar o que havia acontecido, Fabian apanhou a estola de veludo e deu-lhe o brao.
com passos firmes, ele a levou at a porta que ficava ao lado da lareira. Essa porta abria-se para uma sala ntima, onde havia uma mesa posta para dois. A iluminao 
da sala era discreta, o que tornava o ambiente sedutor.
Fabian no se deteve. Atravessou a sala com Loretta e seguiram ambos pelo longo corredor, descendo depois as escadas.
No hall havia diversos criados de libr e um homem mais velho, que parecia estar tomando conta daquela parte da casa.
Todos olharam espantados para Fabian. com certeza imaginavam como poderia ele ter-se materializado e aparecido ali, vindo do quarto do amo, que estava trancado.
Depois de ter ajudado Loretta a descer o ltimo degrau, Fabian disse, em voz autoritria:
- O amo de vocs no est bem. Atendam-no e mandem chamar um mdico imediatamente!
Acabando de falar, no esperou resposta alguma e saiu com Loretta pela porta da frente, descendo os degraus at a carruagem, que j os esperava.
Fabian ajudou Loretta a subir na carruagem e sentou-se ao lado dela. Assim que o criado fechou a porta, os cavalos puseram-se em marcha.
Todo o controle que Loretta conseguira manter at aquele momento se desfez, e ela irrompeu em lgrimas. Sentia-se arrastada pela tempestade de seus temores. Era-lhe 
impossvel controlar os soluos.
Ela chorou como uma criana, e suas lgrimas molharam o casaco de Fabian. Estava insensvel a tudo, exceto  sua infelicidade.
Fabian a abraava bem junto de si, e, quando os soluos diminuram um pouco, ele disse:
- Tudo est bem, minha querida, minha pequena deusa inocente. Est salva. Assim que vi a carruagem do comte partindo da frente da casa de Hugh e me disseram que 
voc j havia sado, foi fcil imaginar o que havia acontecido.
- Ento sabia. que ele ia trazer-me. para a casa dele?
- ela conseguiu dizer num murmrio.
- Conheo muito bem todos os mtodos de Marais - respondeu Fabian com raiva. - Voc quase o matou, minha querida, e eu agiria da mesma forma se ele a tivesse magoado 
de um modo ou de outro.
- Eu estava com muito medo!
- Posso imaginar o que sofreu, mas devia saber que eu viria salv-la.
- Eu rezava para que viesse. E, em meu corao, gritava por voc.
- Ouvi seu chamado. Felizmente, eu j havia estado na casa do comte, e sabia para onde aquele suno a havia levado. Subi at a sacada, o que no foi difcil, pois 
h uma latada logo abaixo dela. Mas mesmo que eu tivesse que atacar a Bastilha, teria ido socorr-la.
Loretta tentou sorrir, mas achou difcil. Conseguiu, porm, conter as lgrimas, continuando com o rosto escondido no ombro de Fabian.
De repente, deu um gritinho.
- Esqueci o brinco de Ingrid! Se algum o achar. pode descobrir que eu estive l!
Fabian abriu a mo, e ela viu o brinco de diamante e prola na palma dele.
- Voc. encontrou-o!
- Assim que cheguei  sacada, ouvi-a gritar que havia perdido o brinco.
- Obrigada. Oh, muito obrigada!
Ento, sem nenhum motivo, as lgrimas comearam a descer pelo seu rosto novamente.
Fabian enxugou-as com ternura quando a carruagem estacionou. Loretta disse:
- No posso deixar que ningum me veja deste jeito!
- No, claro que no. Foi por isso que a trouxe para a minha casa.
Loretta fitou-o, surpresa, e ele disse com carinho:
- No se preocupe. Minha av, a duchesse de Mellerin, est comigo no momento. Ela  uma senhora muito idosa.
Nesse instante um criado de libr abriu a porta, e Fabian ajudou Loretta a descer da carruagem.
Ela entrou com a cabea meio baixa, para que os criados no lhe vissem o rosto.
Fabian conduziu-a pelo grande hall e depois para um cmodo que ficava do outro lado. Assim que entraram, ele ordenou ao criado que lhe abrira a porta:
- Diga ao chef que faa um jantar leve, para dois. Prepare pratos rpidos. E traga-me uma garrafa de champanhe.
O cmodo onde eles estavam era muito bem mobiliado com peas finssimas, todas francesas; havia tambm um sof confortvel e algumas poltronas. Parecia ser a sala 
ntima do marquis.
Apesar de tudo naquela sala ser da mais fina qualidade, via-se que fora decorada para um homem, pois havia ali uma atmosfera de masculinidade inconfundvel.
Fabian levou Loretta at o sof, depois deu-lhe seu leno de linho, para que ela-enxugasse as lgrimas. Quando ela ergueu os olhos para ele, seus longos clios ainda 
estavam molhados.
Loretta no sabia disso, mas estava muito plida; a pintura havia sado com as lgrimas, e sua aparncia era enternecedora.
Fabian permaneceu em silncio, at que um criado entrou, trazendo uma garrafa de champanhe num balde de gelo e duas taas.
O criado serviu uma das taas e deixou-a sobre uma mesinha ao lado de Loretta; depois serviu a outra taa para seu amo.
O balde de gelo com o champanhe foi deixado sobre uma mesa ao lado da lareira, e o criado saiu da sala.
- Beba um pouco - disse Fabian suavemente. - Vai fazer-lhe bem.
Sentindo-se fraca demais, ela obedeceu. Depois limpou novamente o rosto com o leno de Fabian.
- Voc est to linda! Entretanto, querida, sei que necessita desesperadamente de proteco. Esse tipo de coisa no pode
acontecer novamente; por isso, preciso fazer-lhe uma pergunta
- disse ele.
- O que ?
Ela achou estranho que Fabian parecesse estar procurando as palavras cuidadosamente. Finalmente, ele disse:
- Eu a amo e sei que, embora no queira admiti-lo, tambm me ama. Nascemos um para o outro e nos completamos, portanto, temos que ficar juntos. Por isso lhe peo, 
minha querida: fuja comigo.
Por um instante Loretta no compreendeu o que ele dizia, e ficou olhando para ele com um ar indagador. Fabian continuou:
- Durante algum tempo, enquanto seu marido lhe concede o divrcio, viveremos como sua amiga Ingrid e Hugh Galston. Penso que nosso amor seja grande demais para que 
nos importemos em ficar no ostracismo perante a sociedade. Na verdade, acho que o que a sociedade pensa ou deixa de pensar no nos interessa, nem interessar no 
futuro.
- No sei do que est falando. No o compreendo - disse Loretta, hesitante.
- Acho que entende - discordou Fabian. - Voc  bastante inteligente para saber que o verdadeiro amor  irresistvel, e que, quando o encontramos,  impossvel neg-lo.
Ele fez uma pausa e, tomando a mo dela, continuou:
- Nesta mozinha to pequena, minha adorada, voc segura toda a minha felicidade, todo o meu corao. Se recusar o meu amor, nunca mais serei um homem completo.
Loretta fechou os olhos por um momento, depois disse numa voz quase inaudvel:
- Voc tem uma famlia importante. seus bens, suas terras. Tem uma posio na Frana. Como pode fazer uma coisa dessas, que causaria um escndalo?
Fabian deu uma risada espontnea e alegre.
- Escndalo? Que escndalo? O comentrio de pessoas que esto morrendo de inveja porque no sentem o que sentimos? Alm disso, minha querida, ns no estaremos aqui 
para ouvir todas as tolices que falaro sobre ns.
Loretta articulou um leve murmrio, mas no o interrompeu.
Vou lev-la primeiro para o norte da frica, onde possuo umas terras. Vai achar o lugar fascinante como eu acho. Mais tarde viveremos na Normandia, onde tenho uma 
propriedade que pertenceu  minha me.  muito diferente do castelo de meu pai, que fica no vale do Loire. Viveremos na minha propriedade como se estivssemos em 
outro mundo.
Ele apertou a mo dela ao dizer:
- Se no vivermos aqui na Frana, o mundo  bem grande, e sei que onde estiver, tendo-a a meu lado, viveremos a utopia que sempre busquei.  esse paraso que tenho 
procurado sem descanso e que sempre me escapou das mos, at que a vi entrando naquele salo, no primeiro dia de sua chegada a Paris. Eu sabia que a havia encontrado, 
e nada, nem ningum mais, importava.
- No pode estar falando srio - murmurou Loretta. Fabian olhou-a dentro dos olhos, e no havia dvidas de que
o que ele dizia vinha do fundo do corao. Cada palavra pronunciada era absolutamente sincera.
- Sei o que est pensando - disse ele suavemente -, mas sei tambm que, como me ama, minha querida deusa, as explicaes so desnecessrias entre ns.
A voz dele tornou-se mais profunda, e ele prosseguiu:
- Eu a levarei, a protegerei e a amarei pelo resto de nossas vidas. Deve haver outras vidas depois desta, pois  impossvel de agora em diante nos separarmos um 
do outro, mesmo depois da morte.
Incapaz de falar, ela apenas olhava para ele, e seus olhos enormes pareciam tomar conta de todo o rosto.
A porta abriu-se, Fabian soltou a mo de Loretta e disse, numa voz que no escondia sua alegria irreprimvel:
- Agora vamos comer alguma coisa, depois a levarei para casa. J teve emoes demais por hoje. Amanh faremos nossos planos.
Os dois sentaram-se  mesa, e os criados trouxeram um prato aps o outro, todos deliciosos. Durante todo o tempo, Fabian falou.
Ele estava feliz, e no parava de contar coisas divertidas,
de maneira to encantadora que Loretta conseguiu esquecer por uns instantes o que havia acontecido, chegando at a rir.
Ela sentiu-se mais leve, deixando-se envolver pela alegria de estar ao lado de Fabian.
No era possvel sentir-se amedrontada nem infeliz. Naquele momento s existia a felicidade, porque os dois estavam juntos. Nada mais importava.
Quando o jantar terminou e os criados tiraram a mesa, Loretta levantou-se e ficou de p junto  lareira, que, como no era acesa naquela poca do ano, estava cheia 
de flores.
Ela no viu que Fabian viera para junto dela, e surpreendeu-se quando ele lhe perguntou:
- O que a preocupa? - Sem esperar resposta, ele continuou: - Deixe todas as preocupaes para o futuro. Agora quero que sinta se to feliz como estava ainda h pouco. 
Deixe tudo por minha conta, querida.
- Mas no posso.
- Por que no?  para isso que estou ao seu lado; para tomar conta de voc.
- Eu sei... mas.
- No h "mas" - interrompeu Fabian. - Voc  minha, Lora. J lhe disse que matarei o homem que a amedrontar novamente. Tem que confiar em mim e deixar tudo em minhas 
mos.
- No posso fazer isso. Voc no compreende.
Ela pensava que talvez fosse melhor explicar quem era e contar-lhe toda a verdade.
Porm, antes que pudesse organizar os pensamentos ou decidir o que fazer, Fabian ps a mo sob seu queixo, erguendo-lhe o rosto e fazendo-a olhar bem para ele.
- Voc no  apenas adorvel,  muito mais do que isso.
A voz dele tornou-se muito profunda e solene. Loretta sentia-se como se pequenos raios de sol lhe corressem por todo o corpo.
- Adoro-a, adoro sua beleza, quero voc, desejo-a! Depois de conhec-la, que mais poderia fazer? Tambm adoro essa aura de pureza que a envolve. Sei que voc  bondosa 
e inocente; jamais conheci mulher assim em minha vida.
Loretta baixou os olhos, mas ele no soltou seu queixo e continuou:
- Mas isso no  tudo. Tenho certeza absoluta de que voc  a minha outra metade, a parte que me completa e que nos torna uma nica pessoa. Como j lhe disse, encontrei-a 
depois de uma longa procura e jamais a perderei novamente!
Ele falava com tal determinao que fez Loretta sentir que ele removeria qualquer obstculo em seu caminho e lutaria sem descanso para conquistar o que desejava.
- Amo-a! Amo-a! Juntos somos a perfeio do amor. Ento os braos dele a envolveram, e, antes que ela compreendesse o que acontecia, os lbios dele uniram-se aos 
seus.
Todo o corpo de Loretta fundiu-se no de Fabian, e ela deu-se conta de que ansiara muito por aquele momento. Era o que sempre desejara, embora no ousasse admiti-lo.
Ele a beijou at que ela sentisse como se ambos estivessem sendo levados daquela sala para bem alto, no cu.
Agora Loretta no era tocada pela luz do sol, mas seu corpo, transportado por um arco-ris iridescente, ia cada vez mais alto. Fabian lhe dava as estrelas de presente. 
Toda adornada de estrelas, ela brilhava, brilhava.
Ento as estrelas tornaram-se pequeninas lnguas de fogo, em resposta ao fogo que j ardia em Fabian.
Todavia, ele achava-se perfeitamente sob controle. Afinal, quando Loretta sentiu que no podia mais experimentar tais sensaes de xtase e no morrer de arrebatamento, 
Fabian ergueu a cabea e disse, numa voz singularmente oscilante:
- Pode compreender agora?
- Amo-o! - sussurrou Loretta, sem poder evitar.
- Isso  tudo o que importa! - ele disse, num murmrio. Loretta ainda se sentia flutuando quando ele ps a estola de
veludo sobre seus ombros e saram juntos da sala, para o hall.
A carruagem do marquis j esperava por eles.
J na carruagem, Fabian passou o brao ao redor dos ombros de Loretta, segurando-a bem juntinho dele, mas no a beijou novamente.
Pensava no futuro de ambos. Ele o via de modo to ntido
como se estivesse lendo as pginas de um livro que ele mesmo escrevera.
A casa do marquis no ficava muito longe da Avenue ds Champs-lyses.
Quando chegaram, Loretta disse, depressa:
- Preciso falar com voc. Tenho que explicar.
- No vamos falar sobre mais nada esta noite - replicou Fabian. - Amanh ouvirei tudo o que tem a dizer, se for realmente importante. Caso contrrio, minha querida, 
vivamos as emoes. Vivamos num plano alm das palavras.
Ele beijou-lhe a mo, depois disse:
- Tenho que cuidar bem de voc e evitar que se canse, depois desta noite to agitada. V direto para a cama. Lembre-se somente do que sentiu quando a beijei.
Os lbios dele tocaram a mo dela novamente, depois Fabian ajudou-a a descer da carruagem.
Antes que ela pudesse entender o que estava acontecendo, o marquis a levou at o hall e deixou-a l.
Loretta quis cham-lo, impedir que ele se fosse. Mas viu a carruagem partindo. Era muito tarde para dizer que no era quem fingia ser.
Tudo comeou a girar em sua cabea, mas ela ouviu o mordomo dizer:
- Madame est sozinha no salo prateado. "Tenho que ver Ingrid", pensou Loretta.
O mordomo foi  frente dela e abriu a porta do salo prata.
Ela viu a prima, muito linda, sentada em uma das cadeiras estofadas em brocado azul e ouro.
Ingrid olhou para Loretta assim que esta entrou no salo e exclamou:
- Minha querida, voltou cedo! Fiquei to preocupada com o que aconteceu! Disseram-me que voc foi levada em uma carruagem estranha antes de Fabian vir busc-la, 
como ficara combinado.
Loretta respirou fundo e ia contar  prima o que havia acontecido quando o marqus entrou no salo.
A ateno de Ingrid voltou-se imediatamente para ele.
102
- Est tudo bem, Hugh? - ela perguntou ansiosa. - O que o homem queria com voc?
O marqus veio ao encontro de Ingrid em silncio. Ele olhou para ela de um modo enternecedor, dizendo:
- Minha esposa morreu h trs dias, querida! Agora posso pedir-lhe que se case comigo!
Ingrid deu um grito de felicidade que trouxe lgrimas aos olhos de Loretta.
O marqus abraou Ingrid, e Loretta percebeu que eles desejavam ficar a ss. Saiu discretamente do salo, sem ser notada, e subiu as escadas.
S quando chegou ao seu quarto decidiu o que fazer: voltaria para casa.
Em primeiro lugar, porque Ingrid e Hugh queriam estar a ss, depois do que haviam passado. Um novo captulo abria-se em suas vidas, e ningum deveria intrometer-se.
Em segundo lugar, Loretta havia decidido o que fazer no futuro.
Ela tocou a sineta chamando Marie, e, assim que esta chegou pediu-lhe para arrumar toda a bagagem, pois partiriam no primeiro trem, logo pela manh.
- Assim to cedo, milady? - lamentou Marie. - Estou to feliz em Paris! No tenho vontade de voltar para a Inglaterra.
Loretta teve mpetos de dizer que talvez no fosse por muito tempo. Todavia, preferiu calar-se, pois achou que seria agourento falar de algo que ainda no estava 
decidido.
O que agora a torturava era que Fabian poderia zangar-se quando descobrisse que havia sido enganado.
Sendo tambm to anticonvencional e to diferente, Fabian poderia no aceitar ter uma esposa escolhida pelo pai. Ele preferia a aventura perigosa e excitante de 
fugir com uma mulher casada, desafiando a sociedade.
Havia muitas outras perguntas que Loretta fazia a si mesma.
Naquela noite, ela no conseguiu dormir, e, antes que Ingrid acordasse, j saa com Marie para a Gare du Nord.
Durante a noite, escreveu duas cartas. A primeira para
Ingrid, agradecendo-lhe por ter sido to bondosa e compreensiva.
Nessa carta ela contava  prima como estava emocionada e contentssima, porque poderia casar-se com o homem que amava.
Terminava assim:
"Voc no entender, mas algum dia poderei explicar-lhe que desejo casar-me com o homem que amo. No ser um erro, como voc pensou; ser a maior felicidade para 
ns dois.
Assim como voc e Hugh tm o amor que tudo vence, e diante dele tudo perde o brilho e significado, tambm descobri esse amor. Mas, por favor, no diga a Fabian quem 
sou eu. H ainda muitas dificuldades e obstculos."
Para Fabian, escreveu:
"Amo-o. Amo-o de todo o meu corao... Mas talvez, quando souber que o enganei, v deixar de me amar, e ser tudo por minha culpa. Foi um erro e muita ousadia de 
minha parte ter vindo sozinha a Paris.
Procurava, assim como voc, algum com quem sonhava, algum que pensei jamais encontrar.
Assim, talvez possa perdoar-me.
Lora."
Ela ficou imaginando o que o marquis pensaria ao ler a carta. com certeza deduziria que ela havia voltado para a Inglaterra, e talvez achasse que valeria a pena 
ir atrs dela.
Mas ele tambm poderia voltar  vida que levava antes, com certeza para os braos de Mme. Julie St. -Gervaise.
"J houve tantas mulheres na vida de Fabian! Eu no sou mais do que uma estrela cadente que prendeu sua ateno por um minuto, mas de quem ele se esquecer facilmente."
Enquanto o trem as levava para Calais, Loretta queria gritar, tamanha era a tristeza que a consumia por perder Fabian.
O amor que a envolvia era to grande que ela no pensava em mais nada.
"Amo-o! Amo-o!", ela repetia consigo mesma, sem cessar. As rodas do trem que corriam velozmente pareciam repetir as mesmas palavras, fazendo eco: "Amo-o! Amo-o! 
"
Marie, que estava de mau humor por causa de sua volta  Inglaterra, de repente inclinou-se para a frente e perguntou, preocupada:
- Est bem, milady? Est plida. Ser que pegou um resfriado?
- No, estou bem, Marie - Loretta conseguiu dizer.
Mas ela sabia que jamais estaria bem novamente enquanto Fabian no estivesse ao seu lado, protegendo-a, mantendo-a em segurana e amando-a.
Um milho de vezes ela perguntou a si mesma se havia sido um erro partir sem ter visto o marquis.
Se no fosse pela morte da esposa de Hugh e a certeza de que no devia intrometer-se na felicidade deles, poderia ter confessado a Fabian toda a verdade, quando 
ele viesse v-la pela manh, conforme havia prometido.
Entretanto, temia desesperadamente ver a desiluso nos olhos dele.
Loretta lembrava-se do que Ingrid lhe dissera, de maneira to categrica: que Fabian no se importaria com ela se pensasse que ela era uma jeune-fille.
Como reagiria ele quando soubesse a verdade, depois de ela ter-se apresentado como outra pessoa?
E ela no era apenas uma jeune-fille, era tambm a pessoa escolhida pelo prprio duc para ser esposa de Fabian.
O que conhecia a respeito do marquis j era suficiente para saber que ele tambm se ressentia pelo fato de o pai o tratar como se ele ainda estivesse sob sua autoridade.
"Ele  um homem experiente e de muita personalidade", pensou Loretta. " claro que quer ser dono de si mesmo e decidir tudo sozinho! "
Quanto mais ela pensava, mais podia ver a felicidade afastando-se dela e abrir-se um abismo entre ela e Fabian, que se tornava cada vez maior.
A distncia entre eles aumentava mais e mais  medida que o trem a levava para Calais.
Loretta e Marie tomaram o vapor do meio-dia para Dover.
Depois de uma longa e cansativa espera, tomaram o trem para a estao que as levaria para casa.
Loretta mandara um telegrama de Dover, pedindo que mandassem uma carruagem busc-la na estao, e agradeceu a Deus ao ver a carruagem j esperando por elas.
O nico pensamento que ocupava a cabea de Loretta era Fabian. Fabian falando de seu amor por ela, Fabian abraando-a, Fabian subindo pela sacada para salv-la do 
comte.
Fabian! Fabian!
Ela chegou em casa e foi para seu quarto. Sentia-se cansadssima por causa da viagem, e ficou feliz por j ser muito tarde e a prima Emily j estar dormindo.
Parecia que se havia ausentado por um sculo e que vivera em um outro mundo, onde havia apenas Fabian. A ltima coisa que sentiu antes de cair adormecida foi a sensao 
dos lbios dele nos seus.
Mais uma vez as estrelas cintilavam em seu peito, e o brilho que vinha delas transformava-se em pequenas lnguas de fogo.
Quando Loretta acordou, na manh seguinte, sentiu que havia vivido um sonho e que nada daquilo podia ser verdade.
Ela no fez o menor esforo para levantar-se e ir cavalgar, como era seu hbito. No momento, nem mesmo os cavalos lhe interessavam.
Lembrou-se ento de que, se mandasse um recado para Christopher, por meio de Ben, ele estaria esperando por ela  tarde, onde ambos sempre se encontravam.
Ento, pela primeira vez, desde que voltara para casa, sentiu as lgrimas inundarem os olhos.
Como todas as outras mulheres que haviam amado Fabian, ela tambm chorava por ele. Estivera com ele por um breve momento apenas, um instante maravilhoso no qual 
ele lhe falara de seu amor. Agora ela havia atirado fora esse amor, ou melhor, voltando a ser quem era, perdera o homem amado.
E, perdendo Fabian, perdia tudo o que mais desejava no presente e no futuro. Finalmente, j bem tarde, levantou-se.
- No vai cavalgar, milady? - perguntou Sarah, ajudando-a a vestir-se.
- Hoje no.
Ela desceu e mandou preparar o pequeno trole que sempre dirigia para fazer passeios pela vasta propriedade. Saindo na companhia de Ben, foi at a vila para ver Marie.
Marie era a nica pessoa que Loretta queria ver no momento e com quem desejava falar, pois estivera com ela na Frana, e isso formava uma espcie de ligao com 
Fabian.
Marie ficou contentssima ao ver Loretta.
- Bonjour, milady! Que bom vir me ver! Eu estava to triste, muito triste mesmo, por estar de volta  Inglaterra. Sinto saudades de ma belle France.
- Eu tambm - disse Loretta, que pensava apenas em um homem.
Marie fez o seu caf, depois disse, num tom que sempre usava quando se emocionava:
- No se preocupe, ma petite. Vai se casar com o marquis! Os dois sero muito felizes!
- Oh, Marie! - exclamou Loretta. - Talvez ele no queira mais saber de mim quando descobrir que o enganei.
- Isso no  verdade! Monsieur l marquis est apaixonado. Um criado me disse que ele a ama como nunca amou nenhuma outra mulher!
- Por que ele teria dito isso? E como pode saber uma coisa dessas?
Marie riu novamente.
- Os franceses entendem l'amour. O cocheiro de monsieur le marquis disse-me que nunca viu seu amo demonstrar que estava apaixonado por uma lady, como estava por 
voc.
Loretta queria fazer mais perguntas a Marie, para ter respostas mais concretas, mas simplesmente alegrou-se com o que ela disse.
Voltando para casa, sentia-se um pouco mais feliz.
Nesse dia, almoou sozinha. Depois do almoo, passeou um
pouco pelo jardim, andando desassossegada pelo gramado verde, indo at a sebe de teixos que cercava o jardim das rosas.
No centro desse jardim havia uma pequena fonte, bem diferente da enorme fonte do Bois. Entretanto,  medida que a gua era lanada a poucos metros de altura e a 
luz do sol transformava a gua em arco-ris iridescentes, aqueles pequenos arco-ris pareciam estar movendo-se dentro dela, como ela se sentira ao ser beijada por 
Fabian.
"Nunca vou sentir tal emoo por outro homem."
Seu corao se apertou. Era uma dolorosa agonia saber que Fabian no somente estava a quilmetros de distncia, mas que no vibravam um com o outro como antes.
Ele se afastaria dela deliberadamente, no somente fsica, mas tambm mental e espiritualmente.
- Oh, Fabian! Fabian! - ela gritou.
Ouviu a prpria voz ecoar na quietude do jardim. As guas da fonte levaram suas palavras em prece para o cu.
Meio cega pelas lgrimas que lhe inundavam os olhos, Loretta virou-se e viu, por entre as rosas, Fabian vindo ao seu encontro.
CAPTULO VII
Loretta sentiu o corao pulsar loucamente. Uma alegria irreprimvel a invadiu, fazendo-a sentir-se viva novamente, porque Fabian estava ali.
Ele se aproximou vagarosamente, e, quando estava a alguns passos dela, disse, numa voz estranha:
- Pelo que vejo, lady Brompton , na verdade, lady Loretta Court?
- Voc no sabia?
- No tinha a menor ideia! Loretta olhou para ele, surpresa.
- Ento. por que veio at aqui? Como pde encontrar-me?
Enquanto ela falava, notava que o rosto de Fabian estava srio e ele a olhava fixamente, como se no pudesse acreditar que ela fosse real.
Depois de algum tempo, ele respondeu:
- Quando voc fugiu daquele modo to inesperado e cruel, sem me dizer adeus, pensei que fosse ficar louco!
- Ingrid no lhe contou quem eu era?
- No. Ela mentiu-me, de maneira muito convincente.
- Ento. como.
- Hugh de Galston foi mais amvel. Ele disse-me que achava que uma jovem chamada lady Loretta Court poderia ajudar-me.
- Ento. veio at aqui.
- Vim perguntar se lady Loretta Court conhecia lady Brompton.
Houve uma pausa que amedrontou Loretta. Depois ele perguntou:
- Como pde enganar-me daquele jeito e depois fugir de mim?
- Est zangado comigo?
- Muito zangado! Pensei que confiasse em mim. Acreditei at que me amasse.
- Amo voc - respondeu Loretta em voz baixa. - Amo voc, mas. achei que no podia dizer-lhe quem eu era.
- Por que no?
- Porque eu havia ido a Paris para descobrir. quem era
voc...
- Descobrir quem eu era? - ele interrompeu-a. - Por qu? Qual o motivo?
Loretta ficou olhando para ele, surpresa, e ento respondeu:
- Pensei que seria impossvel casar-me com um homem que eu no amava.
A surpresa deixou Fabian imvel e calado. Depois ele disse:
- E que tem o seu casamento a ver comigo? Posso parecer obtuso, mas o que diz  incompreensvel.
Loretta olhou para ele e achou que aquela conversa devia ser fruto de sua imaginao, to estranha lhe parecia.
Desviando o olhar, dominada por completa timidez, disse:
- Fui a Paris porque papai me disse que eu tinha que me casar com voc. Ele havia combinado isso com seu pai.
-  verdade? - exclamou Fabian, quase gritando. Depois pegou Loretta pelos ombros e virou-a, fazendo-a encar-lo.  verdade o que est dizendo? - perguntou, furioso. 
- Seu pai e o meu tramaram o nosso casamento?
Ao seu toque, Loretta sentiu um estremecimento percorrer-lhe o corpo, mesmo estando ele to zangado.
- Eles combinaram tudo quando se encontraram em uma corrida. Seu pai certamente devia ter-lhe contado.
- No me disse nada! Ele vive me pedindo, implorando para que eu me case novamente, mas nunca tive a menor inteno de fazer o que ele quer!
O modo como ele falou fez Loretta pensar que o havia perdido completamente, e o mundo pareceu-lhe mergulhar nas trevas. Esforando-se para controlar-se, Fabian disse, 
ainda irritado:
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- Acho melhor explicar-me desde o comeo o que tudo isto significa. Estou de fato abismado.
Ele a soltou, e ela, trmula, indicou um banco de madeira debaixo de umas rvores, do outro lado do jardim.
No podia falar. Sua voz morrera na garganta. Foi andando at o banco, seguida por Fabian.
Ele sentou-se na extremidade do banco, o mais distante dela que lhe foi possvel. No mesmo tom de voz que usara antes, disse:
- Sugiro que comece desde o princpio e me conte o que vem a ser toda essa histria.
- Como eu poderia imaginar que voc no sabia de nada? Fabian no respondeu, e depois de um momento ela disse,
em voz baixa e triste, num tom muito diferente do modo como falava normalmente.
- Papai voltou das corridas na semana passada, e me disse que seu cavalo vencera o do duc de Sauerdun.
Ela achou que Fabian iria fazer algum comentrio, mas ele permaneceu calado. Seus lbios estavam apertados, formando uma linha fina.
- Papai estava exultante, no somente porque havia vencido a corrida, mas tambm porque o duc havia sugerido que eu devia casar-me. com seu filho.
- E voc concordou?
- Eu tentei dizer a papai que isso era impossvel, pois eu no poderia me casar com um homem que jamais vira... e a quem no amava.
- O que ele respondeu?
- Ele teve um acesso de raiva e disse que eu me casaria com o marquis de Sauerdun, nem que tivesse que me arrastar at o altar; disse que meu casamento com o marquis, 
alm de ser muito conveniente, era muito do seu agrado.
Fabian olhou para o outro lado do jardim. Ela sentia-se cada vez mais triste, porque ele continuava zangado.
- Eu sabia que no adiantava discutir com papai nem lhe implorar. Ento tive a ideia de descobrir quem era voc, assim poderia convencer meu pai de que no devia 
me casar. Decidi ir a Paris para descobrir como voc era, sem ser reconhecida.
- Ento sabia que havia alguma coisa para descobrir?
- Achei que devia haver. porque tudo tinha que ser feito muito depressa. Voc deveria visitar-nos e ficar conosco durante a semana das corridas de Ascot, e ento 
nosso noivado seria anunciado no baile que papai iria oferecer. quando as corridas terminassem.
Loretta nem ousou olhar para Fabian, pois sabia que ele estava mais enfurecido do que antes.
Sentia as vibraes que vinham dele, e isso lhe tirava toda a alegria. Estava matando o que havia de mais importante em sua vida.
- Eu me lembrei - continuou ela depois de alguns segundos - de que minha prima Ingrid, cujo nome nem mesmo nos permitem pronunciar, morava em Paris. Descobri o endereo 
dela atravs de uma antiga empregada nossa que  francesa e que mora ainda na vila, em nossas terras.
- E foi para a Frana sozinha?
- Marie foi comigo. Tudo foi muito mais fcil do que eu esperava. Quando contei a Ingrid por que a procurava. ela compreendeu.
- Compreendeu? O qu?
Loretta ficou em silncio e Fabian repetiu:
- O que ela compreendeu?
- Que voc no era o tipo de marido para mim... e que eu seria muito infeliz ao seu lado.
- Ingrid disse-lhe mais alguma coisa?
- Disse-me que talvez soubesse qual a razo de o duc, seu pai, querer que voc se casasse. to depressa.
- E qual era essa razo?
Relutando, como se as palavras se recusassem a sair de seus lbios, ela respondeu:
- Ingrid me disse que voc. estava apaixonado por uma viva bem-nascida. e que, se voc quisesse, poderia. casar-se com ela.
- Posso entender o raciocnio de meu pai - disse Fabian com sarcasmo.
Loretta deu um profundo suspiro. Suas mos tremiam.
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- Ento as duas decidiram enganar-me, e voc se fez passar por lady Brompton!
- Fui eu quem insistiu em conhec-lo sem que soubesse quem eu era. Ingrid apenas me disse que voc certamente me evitaria se eu me vestisse como uma jeune-fille. 
Na verdade, duvidava que voc sequer falasse comigo.
Pela primeira vez Fabian esboou um leve sorriso.
- E voc achou que o seu disfarce foi muito convincente. Pensou que me enganou o tempo todo e que acreditei que voc era uma mulher casada, muito experiente.
- Voc ento me convidou para jantar e almoar.
- O que aconteceu depois disso? Depois de novo silncio, Fabian insistiu:
- O que aconteceu, Lora?
- Eu... apaixonei-me por voc - disse Loretta num murmrio. - Apaixonei-me, como todas as outras mulheres a quem voc depois desprezou.
- Apaixonou-se? - Sua voz tornou-se suave. - Mesmo assim, fugiu, sem dar explicao alguma, sem me contar a verdade.
- Eu sabia que Ingrid e Hugh queriam ficar sozinhos. Alm disso, ao descobrir que voc era bem diferente do que eu esperava. no podia suportar contar-lhe tudo, 
sabendo que iria ficar zangado comigo.
- Eu era diferente do que voc esperava? Como? Loretta fez um gesto com as mos.
- Sabe exatamente o que quero dizer. Voc falou comigo como ningum jamais falou... E eu no pude evitar. Acabei apaixonando-me.
Ela deu um pequeno soluo, e seus olhos encheram-se de lgrimas. Como se quisesse justificar-se, disse novamente:
- Como poderia imaginar, por um momento que fosse, que voc no sabia dos planos de seu pai?
- Vejo que meu pai foi bem esperto ao planejar tudo disse Fabian vagarosamente. - Pediu-me para vir com ele s corridas de Ascot deste ano. Disse-me at que era 
um favor especial que eu lhe fazia. Concordei, pois gosto muito de vir  Inglaterra.
Ele fez uma pequena pausa, ficando pensativo.
- Depois que eu viesse para a Inglaterra, ele iria insistir para eu ficar uns dias no castelo de seu pai, e, antes mesmo que eu pudesse fazer qualquer objeo, nosso 
noivado seria anunciado.
- Foi exatamente isso que os dois planejaram. Como eu j sabia de tudo, tive que fazer o que fiz para impedir que o plano dos dois desse certo. Assim, no me casaria 
com voc.
- Por que tinha tanta certeza de que eu no seria um bom marido?
Loretta respirou fundo e decidiu contar toda a verdade:
- Eu sempre sonhei que um dia encontraria o homem dos meus sonhos. O homem que me amaria sempre e que corresponderia ao meu amor.
- O que aconteceu quando me conheceu?
- Voc era exatamente o homem dos meus sonhos! Soube disso, senti isso logo que o vi, senti vibraes, e depois que estivemos juntos, j tinha certeza absoluta de 
que era voc o homem que eu via em meus sonhos.
Houve um longo silncio. Fabian parecia estar a milhas de distncia de Loretta. Ela sentiu que ele desaparecia no distante horizonte e que nunca mais o veria.
Mas jamais suplicaria que ele ficasse com ela e continuasse amando-a. Fazer isso seria igualar-se a todas as outras mulheres que ele havia amado. Devia mostrar que 
tinha orgulho.
Se Fabian jamais viesse a pensar nela, pelo menos saberia, agora, que ela era uma jovem de fibra e coragem.
com um- esforo quase sobre-humano, ela levantou-se do banco e disse:
- Agora j sabe de toda a verdade. Compreendo exatamente o que sente. Ser mais sensato partir imediatamente. No adianta mais falarmos sobre esse assunto.
Fabian no se moveu, apenas olhou para ela e perguntou:
-  isso o que voc quer?
Loretta fechou os olhos. Sentia que se crucificava, mas no iria, por mais que o desejasse, atirar-se aos ps dele e suplicar-lhe que no partisse.
- Estou pensando em voc - disse ela. - Felizmente
acho que at o momento ignoram quem voc seja... a menos que tenha dito seu nome aos criados. Meu pai poder ficar sabendo, quando voltar, que esteve aqui... e tudo 
ficar ainda mais difcil do que j est.
- Ento vai dizer a ele que no nos casaremos?
- Poderei fazer isso, se voc no vier ficar conosco, como foi planejado, para as corridas de Ascot.
Fabian ficou de p.
- Ento pensa que, depois de tudo, eu posso voltar a Paris, esquecendo que vim  procura de lady Brompton?
- Ser to fcil! Ela no existe.
- E voc? Poder esquecer o que sentiu quando a beijei? Poder esquecer o que ambos sentimos junto  fonte, no Bois?
Ele ia continuar, mas Loretta no pde mais suportar. Ergueu as mos, como se quisesse afast-lo de perto dela, dizendo:
- Pare com isso! Est tornando as coisas mais difceis. Por favor. por favor. v embora de uma vez!
Enquanto ela falava, notou que Fabian se punha de p, bem atrs dela. Ele ps as mos nos seus ombros suavemente, fazendo-a virar-se.
- Se eu for embora, est preparada para vir comigo?
Ela fitou-o, de olhos muito abertos, sem entender nada. Entretanto, viu que ele no estava mais zangado.
Fabian deu um sorriso que lhe transformou o rosto.
- Voc  to adorvel. - ele disse. - To extraordinariamente adorvel, incrivelmente linda! Como eu poderia perd-la?
Por um momento Loretta achou que no ouvira direito.
Um arrebatamento fez seu corpo estremecer. Seus olhos pareciam ter capturado toda a iridescncia da fonte luminosa. Receando estar enganada, perguntou:
- O que est dizendo? Que quer que eu faa?
- Tenho uma ideia maravilhosa, minha querida. S receio que no concorde com ela.
- Concordar. com qu?
Era difcil entender o que ele dizia, pois seu corao entoava hinos.
Nos olhos de Fabian s havia amor.
- Como pode pensar que eu poderia perd-la, agora que a encontrei? - ele perguntou. - Pelo menos ser interessante conhecer uma jeune-fille!
- Ento. no est zangado comigo?
- No estou mais.
- Ainda me ama. um pouquinho?
Como resposta, ele envolveu-a em seus braos e ficaram bem juntos. Os lbios de Loretta tremiam, prontos e ansiosos para os beijos dele. Fabian olhou para ela por 
um longo momento e disse:
- Amo voc! Adoro voc! Venero voc! Isso basta?
- Oh. Fabian.
As lgrimas que ela retivera durante todo o tempo em que estivera explicando o que acontecera no puderam mais ficar represadas e desceram-lhe pela face.
Ento os lbios dele tocaram os dela, tornando-a cativa. Foi como se o cu se abrisse e uma luz divina os envolvesse.
Fabian beijou-a de maneira possessiva, apaixonada, exigente.
O jardim girava ao redor de ambos, e eles j no se sentiam humanos - habitavam um outro plano, entre os deuses.
Quando, por fim, ele ergueu a cabea, Loretta murmurou:
- Amo voc. amo voc. Oh, Fabian. amo-o tanto! Quando pensei que o havia perdido, queria morrer!
- No vai morrer, minha pequena deusa. Vai viver ao meu lado, feliz, para sempre.
Depois ele disse, em outro tom:
- Ainda no respondeu  minha pergunta.
- Que pergunta?
- Perguntei se voc iria embora comigo. Ela olhou-o, confusa, e ele disse:
- No posso suportar ser manipulado. Isso  humilhante para ns dois. Vamos deixar nossos pais pensarem que arranjaram tudo com perfeio. Enquanto eles antegozam 
o sucesso de seus planos, sugiro que fujamos.
- Fugir?
Loretta mal pde pronunciar a palavra. Fabian deu uma risada alegre e sonora.
- J lhe pedi para fazermos isso antes, pois sabia que me amava como eu a amo, e pensei que seria muito improvvel que recusasse.
Seus olhos brilharam e ele continuou:
- apesar daquele misterioso marido que aparentemente nada lhe ensinara sobre o amor. Nem ao menos lhe ensinara a beijar.
Loretta deu um pequeno gemido e escondeu o rosto nos ombros dele.
- O que o fez suspeitar disso?
- Sempre suspeitei - replicou Fabian. - Primeiro, porque uma mulher casada no poderia ser to inocente, e certamente no teria essa aura de pureza que resplandece 
em voc.
Loretta sentiu uma sbita timidez.
- Alm disso, sentia as vibraes que vinham de voc - ele continuou. - Eram muito fortes, e eu jamais havia experimentado algo assim.
- Agora que sabe quem sou, no acha que o aborrecerei. ou que serei cansativa?
- Estou completamente seguro de que ensinar-lhe tudo sobre o amor ser a coisa mais excitante e mais extasiante que farei na vida!
Ele beijou-lhe a testa e prosseguiu:
- Tenho certeza de que se tivermos que viver uma farsa, fingindo que estamos nos vendo pela primeira vez, quando eu chegar aqui, depois das corridas, sendo ento 
anunciado nosso noivado, seguido de uma longa festa de casamento, muito elegante, no rigor da moda, com todos os meus parentes dizendo que eu serei um marido terrvel, 
ah, isso sim, estragar nossa felicidade.
- Tambm acho. Oh, Fabian, farei tudo o que quiser que eu faa...
Ele segurou o queixo dela e f-la olhar para ele.
- Far mesmo?
Ele no a beijou, como ela esperava que fizesse, mas disse:
- Tem certeza de que no se importar em no ter um casamento com uma longa fila de damas de honra, nem um
enorme e indigesto bolo de noiva, e tampouco far questo de me ouvir fazer um discurso ftil e embaraoso?
Ele falava de um modo to engraado que Loretta comeou a rir.
- No suportaria nada disso. Leve-me daqui... Por favor, leve-me com voc!
- Muito bem. Fugiremos, e nossos pais maquinadores nada podero fazer.
- Eles tentaro nos impedir.
Loretta estremeceu, j imaginando o acesso de fria que o pai teria.
- Deixe que me encarrego de tudo. De acordo com as regras, teria que faz-la desaparecer esta noite, o que seria muito desconfortvel. Ser melhor partirmos amanh 
cedo. Poderemos chegar ao meu castelo, na Normandia,  tardinha. Um capelo realizar nosso casamento, sem a interferncia de ningum.
- Parece perfeito demais para ser verdade.
- Tem plena certeza de que  isso que deseja?
- Tudo o que desejo  que me ame. Mesmo que todos digam, quando souberem de nosso casamento, que eu terei muito pouco tempo de felicidade com voc, isso ser melhor 
do que viver ao lado de outro homem.
Ao dizer aquilo, Loretta provocava Fabian deliberadamente, mas os olhos dele brilharam quando disse:
- Ao celebrarmos nosso octogsimo aniversrio de casamento, vai ver como estava enganada! Tudo o que lhe posso dizer, minha querida,  que vai ser muito difcil 
livrar-se de mim, pois perd-la vai ser pior do que perder metade de meu corpo.
Estas ltimas palavras foram ditas com seriedade, e Loretta chegou-se mais a ele, que a envolveu em seus braos.
- Leve-me com voc. Por favor, leve-me com voc! ela pediu. - Tenho tanto medo de que este sonho maravilhoso possa acabar quando eu acordar.
- Sou mesmo o homem de seus sonhos?
- Sabe que . Voc  tudo o que sempre desejei... Voc
significa tanto para mim, que  difcil encontrar palavras que possam expressar como voc  maravilhoso! Fabian sorriu.
- Gostaria que tentasse encontrar essas palavras, mas agora, minha adorada, quero que volte para sua casa e arrume tudo o que quiser levar. Fique preparada, que 
virei apanh-la amanh s sete horas, se no achar que  cedo demais.
- Essa  a hora em que costumo sair para cavalgar.
- Cavalgaremos juntos quando estivermos na Normandia.
- J ouvi dizer que tem cavalos magnficos.
- Voc montar os melhores deles. Espero que no fique desapontada.
- Nada me desapontar. Oh, Fabian,  mesmo verdade que me tornarei sua esposa?
- Isso agora  bem mais fcil, j que no existe nenhum marido misterioso  nossa espreita!
Juntos, atravessaram o gramado, e, quando chegaram  sebe de teixos, ele disse:
- vou dar-lhe um beijo de despedida.
- No quer ficar hospedado aqui em casa?
- No seria conveniente. Seria aconselhvel deixar um bilhete contando a seu pai com quem  que vai se casar. Quanto a meu pai, apesar de gostar muito dele, no 
vou dizer nada. O duc est precisando aprender que j estou crescido e que posso muito bem cuidar da minha prpria vida.
Loretta deu um grito de protesto.
- No podemos comear nossa vida de casados sendo indelicados com as pessoas! Estou to feliz. Desejo que o mundo todo tambm seja feliz.
- Tem toda a razo, querida! Vamos tentar transmitir essa felicidade a todos os que conhecemos. No sei se algum poder sentir tanta felicidade como a que sinto 
neste momento!
- Voc me ama? O fato de eu ter fugido de voc no mudou seus sentimentos em relao a mim?
- Foi na verdade uma tortura. Fui obrigado a confessar a mim mesmo que no podia viver sem voc. Voc  minha, completa e unicamente minha, e toda a minha felicidade 
depende de voc. 
- Meu amor ser suficiente para manter sua felicidade?
- Duvida disso?
- S sei que o amo com todo o meu ser - ela sussurrou. Ele beijou-a suavemente, depois disse:
- Voc vai ter muito o que falar sobre seu amor amanh  noite, quando j for minha esposa.
Fabian partiu, desaparecendo atrs da sebe de teixos. Para no segui-lo com o olhar, ela voltou  fonte.
Durante alguns minutos Loretta ficou ali, de p, admirando os pequenos arco-ris que brincavam na gua, sentindo que dentro de seu peito eles danavam tambm.
Sua felicidade era tamanha que as palavras eram pobres para express-la.
Loretta no se lembrava de como havia passado a tarde e a noite da vspera em que partira com Fabian.
Ela sentia-se danar sobre um arco-ris, sob as estrelas, sendo-lhe impossvel pensar em tudo o que fosse terreno ou material.
Suas arcas foram arrumadas sob os resmungos de Sarah, que havia acabado de desfaz-las.
Loretta mandara um bilhete para a prima Emily, avisando-lhe que iria viajar novamente, na manh seguinte.
No foi at o quarto da prima, pois sua criada lhe dissera que Emily ainda estava gripada.
A criada at aconselhara Loretta a no ficar em casa, para no se arriscar a ficar doente tambm.
Ainda faltavam dois dias para o duque voltar. Loretta deixou uma carta para ele, sobre a escrivaninha, dizendo que havia conhecido Fabian de Sauerdun por acaso e 
que ambos se haviam apaixonado.
Como se ressentiam por serem pressionados a se casar, haviam decidido que seria melhor partir e casar-se na intimidade.
A carta no era longa e terminava assim:
"Por favor, no se zangue, papai. Sei que me ama demais e agiu dessa forma pensando na minha felicidade, mas o que
estou fazendo agora  o que -eu desejo e que eu sei que  melhor para mim.
Estou muito, muito feliz. Sua filha afeioada e que o adora,
Loretta."
Loretta j havia descido e esperava no hall quando Fabian chegou, s sete horas.
Ele mesmo dirigia um elegante faetonte, puxado por dois cavalos. Mais tarde, explicou a Loretta que aquela carruagem havia sido emprestada por um amigo, na casa 
de quem passara a noite.
Atrs do faetonte vinha um carroo puxado por seis cavalos, no qual viajava o valete do marquis com toda a bagagem. Fabian desceu e Loretta foi ao seu encontro. 
Ele beijou-lhe a mo.
Sem dizer nada, ajudou-a a subir na carruagem, e partiram. No faetonte, sentado em um banquinho logo atrs deles, ia um cavalario.
No castelo, os criados estavam curiosos, pensando por que Loretta teria partido to cedo e quem seria aquele cavalheiro que viera busc-la.
Quando j haviam descido metade do trajeto,  entrada do castelo, ela disse, em tom meio provocador:
- Pensei que talvez, durante a noite, tivesse mudado de ideia!
- Pois pensei exatamente o mesmo! - replicou Fabian.
- Mas depois achei que, sendo to corajosa, minha querida, haveria de adorar esta aventura, da mesma forma que eu.
Loretta sorriu para ele. Fabian continuou:
- Os que sonham com uma cerimnia de casamento elegante, um acontecimento social, ficaro muito zangados conosco, pois vamos casar-nos esta noite, na Normandia, 
e, antes que nossos pais nos encontrem para nos reprovarem, estaremos no norte da frica. Partiremos daqui a dois dias.
Loretta deu um grito de alegria.
-  verdade mesmo? Pensei que reservasse essa viagem para lady Brompton.
Fabian riu.
- Reservei-a para esta linda mulher que ser minha esposa! Tenho muitas coisas para lhe mostrar, e quero explorar muitas mais, no s no deserto, mas tambm em voc.
- Espero que no se desaponte com o que possa descobrir
- disse Loretta com afetada modstia.
- Acho isso muito improvvel.
Ele soltou uma das mos das rdeas e segurou a dela, dizendo:
- Minha querida, s mesmo voc seria bastante corajosa para vir comigo desta forma. Se sentir falta de um belo enxoval, prometo que vou escolher para voc vestidos 
finos, os mais lindos e mais ricos que uma noiva jamais possuiu!
Loretta olhava para ele com uma indagao no olhar, e ele disse, com um sorriso brincalho nos lbios:
- No se esquea de que sou francs. Os ingleses acham aborrecido ir a uma casa de modas, mas eu mesmo fao questo de escolher o que deve e o que no deve usar, 
para ficar ainda mais linda do que j !
- Vai ser to divertido! Oh, Fabian, estou to feliz!
- Tambm eu no poderia estar mais feliz, minha adorada. Juro que jamais se arrepender de ter-se casado com um homem cuja reputao  a de ser um "moderno Casanova".
- Sabe que  chamado assim?
- Claro que sei! Mas prefiro pensar em mim mesmo como um Dom Quixote lutando com o arco-ris. Quero que saiba que, para mim, a maioria dos homens so dignos de pena, 
alm de no serem, nem por sombra, felizes como eu!
- O que quer dizer com isso?
- J lhe disse, quando a conheci, que havia feito uma longa peregrinao antes de encontr-la, e s tivera desiluses. Todo amante segue pela vida procurando a perfeio 
do amor, mas em geral s tem desapontamentos. Todavia, ele continua, esperando que a prxima flor que apanhar  beira da estrada seja a perfeio que busca. Mas 
logo esta tambm murcha e seca, sendo atirada fora.
Loretta exclamou com horror:
- E se isso acontecer conosco?
- Pensou, ainda que por um momento, que isso possa acontecer?
- Tem certeza de que no vai?
- Certeza absoluta. Completa! Assim que a vi entrar no salo prateado, aquele dia, em casa de sua prima, senti que voc era especial. Vibraes saam de meu corpo 
e iam para voc, e eu a vi circundada por uma luz que cegava. Voc era a pessoa que eu vinha buscando, a pessoa por quem ansiei toda a minha vida.
- Sentiu mesmo isso? Eu senti suas vibraes. Mas, como eu havia sido advertida para no me apaixonar por voc, lutava contra essa atrao irresistvel que exercia 
sobre mim.
- Certamente levei muita desvantagem. Mas o importante  que, a despeito de tudo, vencemos todos os obstculos e dificuldades. Esta noite lhe direi como sou um homem 
afortunado por poder ensinar-lhe a primeira lio de amor.
- Espero com ansiedade esse momento.
A viagem foi longa. A primeira parte foi feita de trem at Portsmouth, onde, para surpresa de Loretta, o iate de Fabian os esperava no porto.
Era um iate novo, comprado h pouco tempo, movido a vapor.
Apesar de o mar estar calmo, Fabian quis que Loretta descansasse na cabina at atravessarem o canal da Mancha.
A cabine era grande e muito bonita. Ao levar Loretta at l, Fabian disse:
-  melhor descansar um pouco em vez de dar uma volta para conhecer todo o iate. Tenho orgulho desta embarcao, e daqui uns trs dias estaremos nela novamente. 
Deixaremos nossa casa, minha querida, e partiremos para o norte da frica.
- Vamos de iate? Que emocionante!
- Espero que seja uma boa marinheira.
- Tambm espero. No ser nada romntico ter enjoos durante a lua-de-mel.
Fabian riu e a beijou.
Loretta deitou-se na cama grande e confortvel, adormecendo em seguida. Na noite anterior ela pouco dormira, sentindo ainda
nos lbios os beijos de Fabian, recordando as palavras que ele lhe dissera.
Pouco mais de uma hora depois, Fabian sentou-se na cama e Loretta acordou. Ele a beijou suavemente.
- Estava sonhando com voc - ela disse, sonolenta.
- Chegamos, querida. Como ainda temos que viajar mais ou menos uma hora at nossa casa, precisa levantar-se.
- Claro. Estou ansiosa para ver o seu chateou.
- Nosso chateou. Nossa casa. Partilharemos o castelo e tudo mais.
Loretta viu o chateou em frente a eles, e mais uma vez pensou que estava sonhando.
No faetonte aberto, puxado pelos seis cavalos mais magnficos que Loretta j vira, aproximaram-se do castelo, que, cercado de rvores, com suas torres grandes e 
pequenas, refletindo nas janelas o sol j plido do fim da tarde, os lindos jardins projetados bem ao estilo francs, parecia mesmo parte de um sonho.
No havia uma fonte, mas cinco, logo  entrada do castelo. Nelas, a gua brincava e vinha cair sobre as bacias feitas de pedra, todas trabalhadas. As fontes eram 
mais magnificentes do que a que vira com Fabian no Bois.
Assim que chegaram ao chateou, Loretta quis dar uma volta para ver tudo ao redor, mas Fabian pediu-lhe que subisse.
- Vamos casar-nos imediatamente. No posso mais esperar para t-la como minha esposa.
Os olhos de Loretta tornaram-se enormes quando ela disse:
- Pensei que nos casaramos mais tarde.
Ela viu pela expresso dos olhos de Fabian como ele a desejava, mas ele disse com voz calma:
- Meu capelo estar esperando por ns, e assim que voc estiver pronta ns nos casaremos. Este castelo pertencia  minha me. Voc encontrar o vu que ela usou 
quando se casou. vou mandar-lhe a tiara para usar com o vu. Quero v-la na cerimnia de nosso casamento como a noiva que sempre vi em meus sonhos.
Ela lanou para ele um luminoso sorriso de felicidade, e subiu as escadas. A governanta, uma mulher j de cabelos
grisalhos, com seu vestido de seda preta farfalhante, j a esperava no alto da escadaria, e acompanhou-a pelo longo corredor.
- Este  um dia muito feliz para ns, mademoiselle. Sempre rezamos para que monsieur l marquis se casasse. Agora que a vejo, sei que  exatamente a jovem que madame, 
a me do marquis, teria desejado para o filho - disse a governanta.
- Obrigada - respondeu Loretta com um sorriso.
O quarto para onde Loretta foi levada, que fora da me de Fabian, era muito bonito. O teto era pintado e retratava Vnus, rodeada de cupidos, surgindo do mar.
O grande leito de quatro colunas tinha um baldaquino entalhado com cupidos revestidos de ouro, carregando guirlandas de flores.
Entre as roupas de Loretta estava o vestido que a tia mandara de Londres para ela fazer sua apresentao  rainha, no Palcio de Buckingham. Era todo branco, e nas 
anquinhas havia babados de chiffon. O chiffon que circundava o decote baixo era todo salpicado de pedrinhas brilhantes que pareciam as gotinhas iridescentes da gua 
da fonte.
O rosto e os lindos cabelos de Loretta foram cobertos com um longo vu de finssima renda de Bruxelas, que chegava at o cho.
Quando as criadas que arrumavam a noiva colocaram sobre o vu a linda tiara em forma de grinalda de flores, Loretta no parecia apenas uma noiva, mas uma deusa do 
Olimpo.
Entregaram-lhe um buquet de rosas e de lrios-do-vale, smbolos da pureza que Fabian encontrara nela.
Ao descer as escadas ela viu, no hall, o homem que estava prestes a tornar-se seu marido. Homem algum em todo o mundo poderia ser to bonito, to elegante, to irresistivelmente 
atraente.
Fabian usava um traje a rigor completo. Pela primeira vez ela o viu usando suas condecoraes, e pensou que qualquer dia iria perguntar-lhe a razo de tantas medalhas. 
Certamente as havia recebido por atos de bravura.
Fabian via a noiva descer as escadas lentamente, vindo ao seu encontro. Quando a recebeu, ao descer o ltimo degrau, disse-lhe, muito suavemente:
- Mulher alguma poderia estar to perfeita! Voc  um anjo descido do cu!
Ela sorriu sob o vu. Ele deu-lhe o brao, e ambos caminharam por um longo corredor, em direo ao centro do castelo. A capela ficava na ala leste.
Assim que se aproximaram da capela, ouviram uma msica suave, tocada no rgo. Quando entraram, o capelo, com um coroinha de cada lado, esperava pelos noivos, no 
altar.
Foi uma breve cerimnia, pois Loretta no era catlica romana.
Ajoelhada, recebendo a bno, Loretta prometeu a si mesma converter-se  religio do marido, pois quando tivessem seus filhos, toda a famlia faria seu culto a 
Deus, unida pelo mesmo credo.
A pequenina capela no parecia vazia quando Loretta se levantou, terminada a cerimnia. Ela sentia as vibraes daqueles que durante sculos ali tinham vindo fazer 
suas oraes. A f  algo vvido, forte, absoluto.
No havia necessidade de toda uma congregao de pessoas para lhes desejar felicidades.
Surpresa, Loretta verificou que no haveria brinde com champanhe, no salo. Em vez disso, Fabian a levou para um quarto que ficava junto quele onde ela se vestira.
Era um quarto muito maior e igualmente lindo, porm mais suntuoso. O teto tambm era pintado, e a moblia, constituda de peas antigas autnticas, devia ter escapado 
 revoluo.
Havia uma grande cama com um baldaquino ricamente entalhado, trabalhado em ouro, do qual saa um cortinado carmesim, bordado com o braso de Fabian. Loretta achou 
o trabalho do baldaquino to maravilhoso que teve vontade de examin-lo mais detidamente. Mas no momento s tinha olhos para o marido.
Fabian fechou a porta e levou Loretta at a janela. Dali admiravam as fontes de guas danantes que ficavam no jardim todo florido.
- Esta  sua casa, minha adorada. Quero que ame este castelo como eu o amo. Vamos fazer dele um lugar de amor, onde todos vivam felizes.
- Tambm  esse o meu desejo. Chegando mais perto dele, ela perguntou:
- Estamos mesmo casados? Sou mesmo sua esposa? Tive tanto medo, quando se zangou comigo, de que no fosse mais me querer.
- Sim, voc  minha esposa - disse Fabian em sua voz profunda. - vou provar-lhe isso, minha querida, e nunca mais ter dvidas.
Ao dizer isso, ele ergueu a tiara da cabea dela e depois tirou o vu de renda, colocando ambos sobre uma cadeira que estava ali perto.
Segurando com carinho o queixo de Loretta, beijou-a, a princpio delicadamente, como se ela fosse algo infinitamente precioso.
Quando aquele beijo despertou nela um excitamento, fazendo-a estremecer e deixando-a cheia de desejo, seus beijos tornaram-se mais apaixonados, mais imperiosos.
Enlevada, Loretta sentia-se danando sobre um arco-ris, l nas alturas. O vestido de noiva deslizou pelo seu corpo e caiu no cho.
Fabian a ergueu nos braos e ela soltou uma pequena exclamao de surpresa. Ele carregou-a para a cama, dizendo:
- Cinq-a-sept na Frana  hora de descanso, e como estou lhe ensinando os costumes franceses, minha adorada, aproveito para lhe dizer que quero fazer amor com voc.
Ele a deitou contra os travesseiros macios, arrematados com renda, e Loretta pensou mais uma vez que vivia um sonho.
Quando acordasse, com certeza o chateou e as fontes ter-se-iam esvanecido e o amante de seus sonhos seria apenas um fragmento de sua imaginao.
Mas Fabian estava ali ao seu lado. Era real, ela o encontrara,
e era agora sua esposa.
Ele puxou-a e aconchegou-a junto ao seu peito.
O amor que sentia dentro de si e que a aquecia como um raio de sol, tornava-se agora mais intenso.
Esse amor era como uma onda que a arrastava para Fabian, aproximava-a dele cada vez mais, at que seus corpos se fundiram, os dois coraes bateram em unssono e 
ambos se tornaram uma s pessoa, indivisvel.
- Minha querida, minha adorada, minha perfeita e preciosa esposa! - disse Fabian com voz rouca e profunda. - Agora  minha! Escapamos no somente de nossos pais, 
mas do mundo e de tudo o que  feio e desagradvel. Comeamos uma vida nova. Juntos, voc e eu, encontraremos atravs do amor um caminho que conduza  felicidade 
perene,  felicidade que ser nossa por toda a eternidade.
- Amo voc, Fabian... Amo-o muito... muito! - Loretta disse baixinho.
Ele beijou-lhe os lbios, o pescoo, os seios. As vibraes que vinham dele a tornavam cativa, a aprisionavam. Loretta j no tinha mais identidade, e vivia, vibrava 
com Fabian. Era parte dele, e assim, unidos, foram ambos levados por um arcoris, pairando alm das nuvens, muito alto, no cu.
As chamas da paixo, com centelhas, espalhavam-se por todo o seu corpo e se juntavam s chamas ardentes de Fabian.
E o fogo a consumiu. Ela j no pensava, s sentia. sentia.
- Isso  o amor! Oh, Fabian, como o amo! Como eu o amo!
- Voc  toda minha, minha querida, minha perfeita deusa, minha esposinha adorada! Quero que se entregue a mim.
- Sou sua. Toda sua!
Ento, quando o arco-ris tocou as estrelas no alto do firmamento, o enlevo tornou-se xtase, um xtase to intenso que se aproximou da dor. Fabian tornou Loretta 
sua, por inteiro.

Fim
